O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), manifestou a interlocutores próximos o que considera uma postura desconsiderada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em relação a ele. O incômodo surge em um momento em que o Palácio do Planalto busca avançar propostas no Senado e conta com Motta como aliado, mas um gesto específico gerou contrariedade: um vídeo divulgado no início de junho em que Lula declara apoio à reeleição do senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB).

Veneziano disputa uma vaga ao Senado com Nabor Wanderley (Republicanos), pai de Motta. Um aliado próximo do presidente da Câmara explicou que o apoio a Veneziano era esperado pela proximidade dele com Lula, porém Motta foi surpreendido pela divulgação do vídeo sem aviso prévio e considerou o “timing” inadequado, pois ocorreu antes mesmo do início do processo eleitoral.
O próprio Motta criticou publicamente a divulgação feita por Veneziano, classificando-a como ato de “desespero”. “Deve ter esse desespero de quem está vendo a eleição. Ele (Veneziano) está enxergando o cenário na Paraíba de crescimento nosso. O governador está crescendo, está muito bem. O meu pai, na hora que começa a tracionar, ele (Veneziano) se desespera; se pega como o único bastião de sobrevivência o prestígio do presidente Lula”, disse Motta a jornalistas dias após a publicação do vídeo.
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Interlocutores de Motta relatam que a palavra usada pelo deputado para descrever a relação com o Planalto é “chateação”. Apesar disso, ele tem atuado em sintonia com o Executivo, segurando pautas-bomba e trabalhando para que matérias de interesse tramitem na Casa, o que gera desgastes internos com deputados. Um exemplo citado é o projeto de renegociação das dívidas rurais, demanda da bancada ruralista. Motta tem negociado pessoalmente com o governo e realizado reuniões para buscar um meio-termo que não gere impacto elevado nas contas públicas.
Um governista que conversa regularmente com Motta reconhece o incômodo, mas avalia que se trata de uma questão eleitoral que não interfere no jogo político entre Planalto e Congresso. Ele afirma que Lula reconhece o apoio de Motta neste momento. Um petista envolvido na coordenação da pré-campanha de Lula minimizou a divulgação do vídeo e disse que, para o presidente, Motta e seu pai são aliados que deverão ser valorizados durante a campanha eleitoral, citando que Nabor integra a chapa que terá apoio de Lula na Paraíba. O interlocutor não descartou um gesto do chefe do Executivo nesse sentido mais adiante.
Motta também se queixa de não ser atendido com cargos na estrutura federal e em indicações para o Judiciário. No fim do ano passado, ele foi o fiador da escolha de Gustavo Feliciano para o Ministério do Turismo. Neste ano, já manifestou insatisfação com a demora em indicações a vagas na Justiça. Nesta semana, Lula enviou ao Senado a indicação do desembargador Sergio Torres Teixeira para uma vaga no Tribunal Superior do Trabalho (TST), enquanto Motta apoiava o nome da desembargadora Herminegilda Leite Machado, do TRT da 13ª Região, na Paraíba.
No mesmo dia da indicação, Lula reuniu ministros para tratar de listas de indicados a vagas nos tribunais regionais. No dia seguinte, foram publicadas 21 nomeações e reconduções no Diário Oficial da União. Segundo um ministro que acompanha as conversas, apenas casos com consenso foram tratados no encontro, deixando os demais para um segundo momento. Um governista que despacha no Palácio do Planalto afirma que Motta trabalha para indicar um nome no Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba.
Governistas destacam que Motta tem contribuído para destravar pautas de interesse do Planalto e de Lula, com destaque para o andamento dado à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a jornada de trabalho 6×1, prioridade número um do presidente da República. A PEC foi aprovada na Câmara no fim de maio e agora tramita no Senado. Motta também avançou com a proposta sobre minerais críticos e aprovou a PEC da Segurança Pública.
Por outro lado, ele destravou a discussão da redução da maioridade penal na Câmara, o que contrariou integrantes do Executivo. Motta anunciou a criação de uma comissão especial para analisar a proposta que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. O tema voltou ao centro do debate em meio à pressão por medidas mais duras na área de segurança pública. A proposta é defendida pela oposição, enquanto o governo atua para evitar que avance. Um integrante do governo, sob reserva, disse que o Planalto queria evitar o tema antes das eleições, por identificar nele a possibilidade de atacar a imagem de Lula e prejudicá-lo eleitoralmente.
Um líder próximo a Motta nega que a iniciativa represente retaliação diante da “chateação” com o governo e afirma que a pauta mobiliza grande parte dos deputados, com o presidente da Câmara sendo pressionado a dar andamento ao assunto. Um aliado de Lula no Congresso observa que, com as trocas na Esplanada de ministros que deixaram os postos para concorrer nas eleições, o Planalto implementou uma dinâmica de reuniões semanais com Motta, envolvendo ministros como José Guimarães, Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento), além do líder Paulo Pimenta (PT-RS). O Executivo também deu celeridade aos pagamentos das emendas parlamentares, fato reconhecido pelo próprio Motta.
Aliados de Motta ressaltam que, por ora, não há disposição do parlamentar em abrir confronto com o Executivo, mas cobram maior atenção e valorização do papel que ele tem desempenhado na relação entre Planalto e Congresso. A relação entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), permanece distante após a rejeição da indicação de Jorge Messias para o STF, o que impôs uma derrota histórica ao petista. Nesse contexto, o governo tem apostado na interlocução com Motta para avançar projetos de interesse no Congresso.
Com informações de O Globo.