Quando Flávio Bolsonaro viajou dos Estados Unidos para o Brasil no jato que tinha Daniel Vorcaro entre os donos, em janeiro de 2025, o senador estava cadastrado como “usuário master” da conta bancária de uma empresa que também detinha um terço da aeronave. A informação consta de troca de e-mails do Santander com a secretária de Willer Tomaz, descrita pela Polícia Federal em relatório da investigação sobre os desvios do INSS. Flávio e Tomaz negam conta conjunta e dizem que a informação é falsa.

A conta no Santander estava em nome da Alcazar Holdings e era administrada por Tomaz. Até maio de 2025, também era de Flávio, segundo indica o e-mail captado pela PF no iCloud do advogado. O material, com prints e fotos do candidato armazenados no dispositivo, foi obtido pela reportagem.
Favorite o Termômetro da Política no Google e acompanhe as notícias mais importantes para o seu dia
Às 8h05 de 22 de maio de 2025, a secretária Fayla Menezes enviou mensagem a gestores da área de clientes corporativos e câmbio, com cópia para Tomaz, pedindo o acréscimo de um novo usuário ao perfil Master da conta da Alcazar e acrescentando: “Na oportunidade peço por gentileza no gerenciador do usuário master desassociar as contas abaixo”. Em seguida, lista um número e o nome de Flávio Bolsonaro e outra “conta PF Willer”. A resposta do banco chega às 10h21: “As contas foram excluídas do contrato, conforme solicitado.”
A assessoria de Flávio afirmou que o presidenciável “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas” e sustentou que o “próprio e-mail apresentado comprova justamente que a vinculação era indevida, tanto que solicita a desvinculação”. Willer negou por nota ter dividido conta. “O e-mail enviado ao Santander não demonstra o contrário. Extrair desse documento uma ‘eventual participação econômica ou societária’ é ilação”, diz o comunicado.
Leia também
Pesquisa aponta Lula em tendência de crescimento e Flávio Bolsonaro em queda
A Alcazar, sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, tem Willer como único sócio e era dona de uma das três cotas do Legacy 650 de matrícula PP-NLR, adquirido em 2023 pela Fraction 024. Foi nesse avião que Flávio e o advogado voaram de Brasília a Fort Lauderdale e de volta. Os outros cotistas eram Laerte Cosentino, dono da Totvs, e a Prime You, que tinha Vorcaro entre os sócios. Questionado pela revista piauí, que descobriu a conexão, o senador disse que voou de carona a convite de Tomaz, por amizade. O advogado afirmou não saber que a Prime You era cotista nem que era de Vorcaro. Os documentos da PF sugerem agora que Flávio pode ter sido mais do que um carona.
De acordo com a PF, “na documentação relativa à abertura da conta bancária da empresa Alcazar Holdings, verificou-se que Flávio Bolsonaro figurava com perfil de usuário master, condição que, em princípio, lhe conferia nível elevado de acesso e gerenciamento” e “acesso operacional relevante” à conta, o que “sustenta a hipótese de sua eventual participação econômica ou societária de fato na empresa”. Outro ponto, para a corporação, é que a holding não se limita a estrutura isolada: detinha “participação expressiva em outra pessoa jurídica”, os 33,33% da Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., dona do Legacy. “Assim, eventual vínculo societário ou de gestão mantido com a Alcazar Holdings também pode assumir importância para a compreensão das relações indiretas com a Fraction 024, especialmente diante da participação de um terço do capital social dessa empresa”, diz outro trecho.
O voo foi revelado pela piauí em 23 de setembro. O avião é o mesmo em que Alexandre de Moraes viajou com a mulher, Viviane Barci de Moraes, em 22 de agosto de 2025, como mostrou Lauro Jardim. Em outro relatório da PF apresentado por André Mendonça ao plenário do Supremo, em maio de 2025, Vorcaro negociou com Viviane contrato de R$ 50 milhões que previa a cessão da cota da Prime You e mais R$ 10 milhões para manutenção da aeronave, como pagamento de serviços não especificados. O escritório Barci de Moraes Associados já havia fechado outro contrato de R$ 131 milhões com o Master, pelo qual foram pagos R$ 80 milhões. Vorcaro foi sócio da Prime You de setembro de 2021 a setembro de 2025. Quando o voo de Flávio foi revelado, o senador ironizou: “Ainda bem que na época o avião era de Willer”, escreveu nas redes.
A participação na conta teria sido encerrada em 22 de maio de 2025, indica o e-mail de Fayla. Dois meses depois, em março, Flávio e Tomaz fizeram safári na África do Sul com Weverton Rocha (PDT-MA), outro alvo das investigações do INSS. Documentos da PF mostram ainda que Willer bancou viagens com Flávio e familiares usando a Cathedral Holding como intermediária. “O dado chama atenção porque indica que a empresa (Cathedral) não figurava apenas em relações de natureza societária ou patrimonial, mas também teria sido utilizada para custear ou operacionalizar deslocamentos de caráter pessoal”, diz a investigação.
No celular de Willer, consta reserva para 23 de maio de 2025 no Bombardier Challenger 350, de Cascais, em Portugal, a Nice, na Riviera Francesa. A apuração indica que o destino final não era a França, e sim Mônaco, onde ficam os cassinos de Monte Carlo. Há registros de passagens para Flávio, as filhas, a esposa Fernanda Bolsonaro, Willer, a esposa Flávia Corrêa e outros familiares. No mês anterior, em 11 de abril, havia reserva também em Challenger 350 de Lisboa a Nice.
Com informações de O Globo.