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Chefão dos hospitais do Rio: entenda como funcionava o esquema de Flávio Bolsonaro durante a pandemia
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Embora não ocupasse cargo formal no governo do pai, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) exerceu forte influência política nos seis hospitais federais do Rio de Janeiro no período de 2019 a 2022, segundo gestores e ex-gestores hospitalares, parlamentares, servidores e integrantes de órgãos de controle ouvidos pela Agência Pública.

Flávio Bolsonaro é candidato a presidente da República
Flávio Bolsonaro é candidato a presidente da República (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

Em março de 2026, o deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ) acusou publicamente o senador de liderar um esquema nos hospitais federais fluminenses. “Toda a estrutura de poder e de indicação política, e as empresas que participariam de licitações, que ganhariam ou perderiam, tudo isso estava dentro do grupo cuja cabeça era o senador Flávio Bolsonaro”, afirmou. Otoni, pastor evangélico de direita, tem defendido o voto em Lula.

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Em maio, durante inauguração na Fiocruz, o ministro da Saúde Alexandre Padilha (PT-SP) chamou Flávio de “o poderoso chefão” dos hospitais federais no governo do pai. Em entrevista à Pública em setembro, ele repetiu a expressão e detalhou: “Era, de fato, o poderoso chefão dos hospitais federais. Passava por ele a indicação de quem seria diretor e todas as decisões relacionadas a hospitais e contratos. Ele montou um esquema de rachadinha política com a ocupação dos cargos e provocou um desmonte. Todos os contratos de terceirizados tinham funcionários fantasmas. Um contrato de limpeza falava em 200 postos de trabalho, quando a gente olhou só havia 50 pessoas trabalhando”.

Os hospitais — Andaraí, Geral de Bonsucesso, Cardoso Fontes, Ipanema, Lagoa e dos Servidores — contavam com orçamento superior a R$ 3 bilhões nos quatro anos, justamente no período da pandemia de Covid. Documentos e depoimentos obtidos pela Pública mostram que a precariedade no funcionamento das unidades coexistia com contratos superfaturados e forte concentração de recursos em custeio administrativo, sob administradores locais que seriam indicados pelo grupo político de Flávio.

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O relatório final da CPI da Covid, que dedica um capítulo ao Rio, registra que 30% dos leitos clínicos e de UTI nos hospitais e institutos federais da capital “estavam e permaneceram fechados durante a pandemia, embora pudessem ter sido disponibilizados aos pacientes nesse período, evitando, inclusive gastos com abertura de hospitais de campanha. A maior parte estava fechada por falta de profissionais de saúde. No fim de dezembro de 2020, 3,5 mil contratos foram encerrados nos hospitais federais do Rio de Janeiro. Posteriormente, a Medida Provisória nº 1.022, de 31 de dezembro de 2020, prorrogou apenas 1,4 mil contratos por sessenta dias. Esse quadro foi decisivo para agravar o atendimento à população do Rio de Janeiro ante o recrudescimento da pandemia”.

O estado registrou mais de 2,8 milhões de casos confirmados de Covid e 77.166 mortes, das quais 38,8 mil ocorreram na capital. A atuação política nos bastidores deixou marcas nas unidades do SUS. Em um terreno do Hospital Cardoso Fontes, a milícia chegou a cobrar estacionamento de funcionários e familiares de pacientes, segundo inquérito da Polícia Civil.

Em abril de 2023, a pedido do deputado e médico sanitarista Daniel Soranz (PSD-RJ), a Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara visitou a rede e encontrou 735 leitos inoperantes ou bloqueados, andares vazios, alas trancadas com correntes e cadeados, obras paralisadas e equipamentos ociosos. No Bonsucesso, onde um incêndio no almoxarifado matou quatro pacientes com Covid durante a pandemia, a emergência reformada estava fechada por falta de pessoal; 126 dos 411 leitos estavam impedidos e setores como diálise, cardiologia e pós-operatório parados. No Andaraí, a falta de médicos atrasava em até duas horas a declaração de óbito; a cozinha inacabada gerava gasto mensal de R$ 1,6 milhão com transporte de comida. No Cardoso Fontes, pacientes aguardavam em pé ou em macas nos corredores.

“É ainda mais grave que isso tudo tenha ocorrido durante a pandemia”, afirma Soranz, doutor em saúde pública pela Fiocruz e ex-secretário municipal de Saúde do Rio em três gestões de Eduardo Paes. À Pública, ele disse: “Flávio [Bolsonaro] teve uma influência nefasta para os hospitais federais, foi algo terrível”.

Diagnóstico de 235 páginas do Ministério da Saúde, de fevereiro de 2023, mostra que 72% dos recursos dos seis hospitais — R$ 50,3 milhões por mês — iam para custeio (limpeza, vigilância, rouparia). No Bonsucesso, a fatia chegava a quase 80%. Contratos com a Nova Rio Serviços Gerais apresentavam margens de lucro até 561% acima do acordado e custos indiretos até 581% superiores aos do ministério. O hospital pagou mais de R$ 2 milhões em plano de saúde privado para funcionários da terceirizada e adicional de insalubridade, sem laudo, para secretárias e almoxarifes.

Aliados de Flávio aparecem nos contratos. A lavanderia Max Clean, fundada pelo pai do deputado Altineu Côrtes (presidente do PL no Rio) e registrada em nome de uma tia, multiplicou por oito o faturamento no período. Segundo o Portal da Transparência, a empresa já recebeu R$ 81,5 milhões do Ministério da Saúde em centenas de contratos e continua recebendo. Uma servidora que preferiu não se identificar relatou: “A Max Clean atendia todos os hospitais. Hoje, continua no Hospital dos Servidores e no Lagoa, é difícil tirá-los. Os fiscais do ministério que analisam esse contrato já pediram para deixar a função. É muita pressão”. E acrescentou: “Em época de pregão, o Seu Altineu, pai do deputado, chegava armado nos hospitais com uma sacola cheia de chocolates, distribuindo doces pra gente. Nossa esperança é tirar eles em abril, quando o contrato vence, e que eles não ganhem a próxima licitação.”

O diagnóstico do ministério registra que “Não raro a troca de diretor ou de coordenador de Administração coincidia com a proximidade do término de um contrato, e quando um novo diretor era nomeado não tinha tempo hábil para iniciar processos regulares, e um novo contrato emergencial era efetuado”. Esses contratos “geralmente tem um valor acima do licitado”. Entre 2019 e 2022 o Bonsucesso teve cinco diretores. O relatório recomendou auditar a pesagem da roupa e o faturamento da lavanderia, onde as peças saíam “sem controle de saída”.

Não há cálculo consolidado de sobrepreço total de 2019 a 2022, mas a Pública obteve 13 relatórios do TCU e cinco da CGU que apontam valores acima do mercado, identificados em auditorias preventivas que evitaram a assinatura dos contratos. No Pregão Eletrônico nº 05/2022 do Hospital dos Servidores (R$ 120,9 milhões em insumos para cirurgia vascular), a auditoria encontrou “falhas na estimativa de preços que resultaram na adoção de valores superdimensionados em aproximadamente R$ 69 milhões”, sobrepreço de 57%. No Pregão nº 20/2021 (R$ 31,3 milhões em medicamentos oncológicos), o sobrepreço foi de R$ 18,1 milhões, também 57%. Houve tentativa de comprar 180 stents heparinados por R$ 7,5 milhões — R$ 42 mil a unidade —, enquanto em licitações regulares no Brasil o valor usualmente não passa de R$ 30 mil.

O médico João Marcelo Ramalho Alves, diretor do Hospital dos Servidores (conhecido como “hospital dos presidentes”, inaugurado em 1947 com Getúlio Vargas como matrícula número 01), lembra que “Em todo o país, só o Rio de Janeiro tem hospitais federais pelo fato de ter sido a capital até 1960”. Com a mudança da capital, as unidades ficaram suscetíveis a políticos fluminenses. “Um hospital só perde em complexidade para controle de tráfego aéreo. São contratos de vários tipos, mais de 5 mil itens a comprar. Para quem quer fazer esquema, sempre foi uma área fácil”, afirma Ramalho Alves, que também dirige o Hospital Universitário Gaffrée e Guinle e foi diretor do Departamento de Gestão Hospitalar do Ministério da Saúde no Rio em 2014.

Com informações da Agência Pública.

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