No Rio de Janeiro, as milícias são organizações criminosas armadas formadas principalmente por agentes e ex-agentes das forças de segurança — policiais militares e civis, bombeiros, agentes penitenciários — além de civis. Diferente das facções tradicionais do tráfico, que concentram receita na venda de drogas, esses grupos estruturam um modelo de negócios baseado no domínio territorial absoluto, na coerção e na exploração econômica de serviços cotidianos.

O fenômeno tem raízes em grupos de extermínio dos anos 1960 e 1970, como a Scuderie Le Cocq. A consolidação territorial ocorreu a partir dos anos 1980, especialmente na Zona Oeste. Rio das Pedras, vizinha à Barra da Tijuca, é apontada como o berço da milícia moderna: policiais de folga (a chamada “polícia mineira”) passaram a controlar a associação de moradores e a expulsar traficantes, sob o discurso de “autodefesa comunitária”. Com o tempo, o pretexto de combater o tráfico deu lugar a um sistema de extração de renda.
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Na prática, o funcionamento combina violência e monopólio econômico. Os grupos cobram taxas de “proteção” de moradores e comerciantes. Controlam a venda de botijões de gás (obrigando a compra de fornecedores autorizados), o transporte alternativo (vans e mototáxis), ligações clandestinas de TV e internet (gatonet), além de avançar sobre o mercado imobiliário irregular — grilagem de terras, construções e revenda de imóveis. Em diversas áreas, também atuam ou se associam ao tráfico de drogas, configurando as chamadas narcomilícias. O território se transforma em fonte de receita e, simultaneamente, em curral eleitoral: apenas candidatos tolerados fazem campanha, e a circulação de adversários é restringida.
Especialistas e autoridades descrevem a milícia não como um “poder paralelo” puro, mas como uma rede entrelaçada às instituições do Estado. O controle armado se combina com influência política e a presença de agentes públicos dentro ou próximos aos grupos.
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) acumula episódios públicos e parlamentares que o aproximam de figuras e práticas associadas às milícias, embora não haja decisão judicial que o condene como integrante desses grupos.
Em 2005, quando deputado estadual, Flávio concedeu a Medalha Tiradentes — a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) — a Adriano da Nóbrega, então policial militar. Anos depois, o Ministério Público apontou Nóbrega como liderança da milícia de Rio das Pedras e do grupo de extermínio conhecido como Escritório do Crime, investigado em conexão com o assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes. No gabinete de Flávio na Alerj, a mãe de Adriano (Raimunda Veras Magalhães) e sua esposa (Danielle Mendonça) ocuparam cargos comissionados; os repasses financeiros foram objeto de investigações no âmbito do esquema de rachadinha.
Em discurso de 2007 na tribuna da Alerj, Flávio defendeu as milícias como uma “nova forma de policiamento”, afirmou que não se deveria estigmatizá-las e mencionou benefícios da atuação desses grupos em comunidades como Rio das Pedras e Batan. Ele declarou, ainda, que não se importaria em pagar entre R$ 30 e R$ 40 por segurança para evitar o aliciamento de filhos pelo tráfico. Registros da época mostram que ele se opôs à instalação ou ao andamento da CPI das Milícias.
Análises eleitorais recentes, baseadas em dados do Instituto Fogo Cruzado e mapas de locais de votação, indicam desempenho mais favorável de Flávio em áreas sob influência de milícias na região metropolitana do Rio, com diferenças de pontos percentuais em relação a zonas sem esse domínio dentro dos mesmos municípios.
Durante a campanha de 2026, Flávio tem classificado milicianos, junto com facções como CV e PCC, como “narcoterroristas” e prometido combate ao crime organizado. Oposição e reportagens, no entanto, recuperam o histórico de homenagens, nomeações e declarações como elemento de debate sobre a relação entre o candidato e esses grupos. Não há, até o momento, condenação judicial que estabeleça integração formal de Flávio a uma milícia; o que o conjunto de registros documenta são vínculos políticos, honrarias e falas públicas de defesa em momentos anteriores.
As milícias continuam a expandir e a disputar territórios no estado, misturando extorsão, serviços monopolizados e influência eleitoral. O caso de Flávio Bolsonaro ilustra como o fenômeno se entrelaça com a política fluminense ao longo de mais de duas décadas.