Todo mundo já sabe que estamos vivendo uma época com mais acesso à informação e a barra de pesquisa a um clique de distância. Só que essa facilidade de acesso a tudo também torna a gente preguiçosa para se aprofundar e ter um melhor embasamento e argumento sobre qualquer assunto. Aí tem gente que sai propagando informação rasa só pensando em viralizar nas redes sociais sem nem saber direito sobre o que está falando.
Parece que o vilão da vez é o poliéster. Alguém resolveu demonizá-lo no TikTok e agora todo mundo se revelou contra as roupas formadas por essa fibra sintética. No discurso copiado e reproduzido em diversos vídeos por aí, o poliéster é um simples NÃO no guarda-roupa de qualquer pessoa, por ser barato e não ser respirável. Não acho que o preto-no-branco funcione simples assim no que se refere à moda.
Hoje o poliéster é associado a algo barato, ruim e mal feito. Mas nem sempre isso condiz com a realidade. O que acontece, na verdade, é que muitos tecidos feitos com poliéster não permitem uma boa respirabilidade, visto que, em termos simples, a fibra é derivada do petróleo e desenvolvida em laboratório (às vezes a sensação é de tocar em um plástico mesmo). Há, ainda, a liberação de microplásticos nas lavagens, sendo uma causa de poluição por resíduos. O poliéster é uma fibra muitas vezes mais barata e, por isso, associada com lojas de departamento e fast fashion, então é generalizada como algo de baixa qualidade.
Aqui pode ser interessante entender que fibra é o que dá origem ao tecido. É a primeira fase da produção de uma peça de roupa. Poliéster não é necessariamente um sinônimo de tecido ruim, já que a construção do tecido vem depois da seleção da fibra, e é o que vai determinar se ele vai ser melhor ou pior. Dependendo da fibra, o tecido formado pode ter comportamentos bem diferentes: crepe, organza ou tule são exemplos que levam o poliéster em sua composição. O toque entre um e outro pode variar completamente.
Dito isso, nem toda fibra tem a mesma origem e o mesmo desenvolvimento.
Temos inúmeras maisons com peças de roupa que custam milhares de dólares feitas inteiramente de… poliéster. Mas não é porque uma peça é cara que é necessariamente melhor. Aqui vale olhar para a qualidade do desenvolvimento do fio, da tecelagem, dos acabamentos e, principalmente, da modelagem. Mas, para isso, é preciso entender sobre o caimento e as vantagens e desvantagens de cada fibra.
Quer algo mais interessante do que um vestido que brinca com brilho e explora drapeados em volumes nas mangas de forma imprevisível?

Um vestido longo feito de tecido 100% algodão certamente é lindo… para um almoço, um aniversário, por exemplo. Mas não deve ser a melhor opção para uma convidada de um casamento. Afinal, é você descendo do carro para a cerimônia e se deparando com o vestido todo amarrotado. E essa é uma das vantagens de uma composição com poliéster. Uma calça de modelagem de alfaiataria clássica 100% de linho provavelmente é maravilhosa. Mas também amassa na primeira passada. E, se entra um percentual de poliéster, a peça ganha conforto visual (outro dia, Renata Vasconcellos apareceu com uma calça toda amassada enquanto apresentava o Jornal Nacional e muita gente achou que ela tinha vestido a peça daquele jeito). É claro que a gente tem que considerar aqui que existem fibras sintéticas/artificiais melhores e piores, o que interfere diretamente no resultado final. A blusa de poliéster vendida em uma loja de bairro possivelmente não é feita do mesmo poliéster encontrado em uma maison de luxo.

Mas nada é tão simples que não tenha salvação ou alguma vantagem. É preciso também considerar a tecnologia têxtil: hoje temos o poliéster reciclado, microfibras de poliéster e tecidos modificados em laboratório usados em esportes de alta performance, por exemplo. Nesses casos, há a aplicação de tecnologias para aumentar a respirabilidade que diferenciam um poliéster adequado para esportes do poliéster que costumamos encontrar em peças casuais.
Vale ainda perceber que fica difícil encontrar uma fibra perfeita, levando em conta que para desenvolver um tecido a partir do algodão, por exemplo, o consumo de água é altíssimo (para produzir um quilo de algodão, precisa de cerca de 10.000 litros, enquanto 1kg de poliéster requer entre 62 a 1.000 litros de água). Além disso, por ser sintético, o poliéster pode ganhar uma durabilidade maior.
O que acontece é que a nossa percepção sobre as coisas muda o tempo todo. Ao ser desenvolvido, nos anos 1970, o poliéster foi celebrado justamente por resultar em peças que não precisavam ser passadas a ferro e por sua resistência e durabilidade.
Moda praia, fitness, lingerie: todos esses levam o quê na composição? E isso vem à tona quando a gente para pra perceber que um biquíni 100% algodão demoraria inúmeras horas pra secar no corpo depois de um banho de mar. Que uma legging de academia não vestiria tão bem se não tivesse uma aderência provocada por uma boa malha.
Só acho engraçado ver o quanto estão condenando o poliéster enquanto usam um tênis e casaco impermeáveis, que são produzidos majoritariamente por fibras sintéticas e artificiais.
Em tempo: eu confesso que prefiro roupas de fibra natural. Mas digo isso morando em uma cidade cuja temperatura média é de 30°C e sabendo que uma blusa com mangas 100% de poliéster não vai me permitir respirar, transpirar e ficar confortável no calor constante. E digo mais, acho uma calça 100% linho amassada super chique.