Jornalista e designer de moda por formação, curiosa por natureza. Encontra beleza nas pequenas coisas com uma boa trilha sonora. Instagram: @andcaire
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Antes do stylist
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Ao pensar na imagem de um artista hoje, é muito difícil não associá-la ao seu estilo de se vestir e se portar. Se for da música, pensamos em seus figurinos no palco; se for do teatro, da televisão ou do cinema, em seu estilo nas premiações e entrevistas, ou até mesmo nos personagens mais marcantes da carreira.

Hoje, para ter uma coesão entre personalidade, estilo e apropriação a cada ambiente, existe toda uma equipe criativa contratada por trás: seja de marcas, assessoria ou styling. Será que essa imagem construída condiz verdadeiramente com o artista ou, antigamente, essa relação era mais genuína?

Houve um tempo em que os próprios artistas elaboravam ou mandavam a ideia para alguém elaborar seu figurino, de acordo com o que achavam mais interessante. Quando é que a roupa deixa de apenas vestir e passa a fazer parte da identidade daquele artista? Essa identidade tem que fazer jus à sua imagem e comportamento, e é por isso que muitos dos mais conhecidos contratam equipes para assumir essa pesquisa e definir tudo. Mas toda essa preocupação, aos mínimos detalhes, não torna a imagem menos intuitiva?

Antes o artista escolhia sua própria imagem pública: roupas, cabelo, maquiagem e acessórios, de acordo com o que queria comunicar, porque a profissão de stylist ainda não era consolidada. É algo relativamente novo.

O termo stylist já existia desde 1795, mas originalmente era usado para falar de alguém habilidoso no estilo da escrita, e não de moda. No início do século XX, a imagem pública era construída por uma equipe reduzida basicamente a um estilista/costureiro, editor, fotógrafo e figurinista. O profissional dedicado exclusivamente ao styling começa a aparecer nos anos 1930, com a americana Tobé Coller Davis sendo a pioneira. Ela comandava a Tobé Incorporated, empresa que fazia consultoria e produção de moda para diversas lojas de departamentos nos EUA e em outros países.

A partir daí, passaram-se as décadas de 1940, 1950 e 1960 e a função foi se firmando em ensaios para revistas, publicidade, cinema e televisão. Entre 1970 e 1990, foi ganhando cada vez mais protagonismo na construção da imagem de modelos, artistas e celebridades. Até que se tornou, nos anos 2000, uma figura fundamental na indústria da moda e na construção da imagem pública de celebridades e artistas.

Um rápido adendo aqui: ainda não existe um nome em português para a profissão de stylist. Herdamos mesmo do inglês e ficou. Afinal, o termo mais próximo poderia ser o de estilista, mas esse já é quem desenha, costura e desenvolve as confecções. O stylist pesquisa tendências, cria possibilidades de acordo com o que é requisitado e monta os looks completos, com roupas, maquiagem, cabelo e acessórios. Em tempo: é uma profissão de se admirar, devido à complexidade que todos esses elementos impõem.

Até a década de 1970, poderia até não existir ainda o stylist como conhecemos hoje, mas o seu conceito já estava por aí. E é fácil lembrar de artistas que construíram uma imagem de muita identidade. Lembro imediatamente de David Bowie quando penso em uma figura assim. Mas aqui no Brasil temos muitas referências de peso também, como Ney Matogrosso, Rita Lee e Elis Regina.

David Bowie (Foto: Divulgação)

O alter ego Ziggy Stardust, de David Bowie, é um exemplo de como a criação de um personagem pode direcionar sua carreira. Eram macacões com cortes diferentes, estampas geométricas e brilhantes, o cabelo vermelho vivo com corte em mullet e a testa com um círculo de contorno vermelho e centro dourado, feito com maquiagem teatral. As botas tinham plataformas enormes e eram de vinil vermelho ou prateadas. Ele elaborou tudo com base no que se imaginava sobre a estética espacial e futurística naquela época: brilhos metalizados, figuras geométricas e materiais reluzentes que refletissem as luzes do palco.

Secos & Molhados; no centro: Ney Matogrosso
Secos & Molhados; no centro: Ney Matogrosso (Foto: Gerson Conrad/Divulgação)

Por aqui, também na década de 1970, Ney Matogrosso surgiu como uma novidade, no mínimo, intrigante: com uma pintura facial única em preto e branco, tomou a androginia como parte de seu estilo e linguagem corporal, em conjunto com sua voz, que converge todos esses elementos de uma forma nunca vista antes. Em seus figurinos, entravam muitos elementos étnicos, como penas, dentes e sementes como pingentes, unindo diversas maneiras de brasilidade. Cultura indígena, tangas e adereços de cabeça marcaram seu início de carreira.

Mutantes; no centro: Rita Lee
Mutantes; no centro: Rita Lee (Foto: Richard Sasso/Divulgação)

Rita Lee, com sua irreverente performance nos palcos e fora deles, traz uma imagem de moda e estilo desde seu cabelo ruivo até o vermelho vibrante com franjinha, seus óculos de armação redonda e lentes coloridas, roupas em veludo, batas, túnicas, e, posteriormente, macacões justos e em materiais com brilho. Irreverente, a moda aqui era também uma forma de protesto, juntamente com suas tiradas bem-humoradas. Certa vez se apresentou usando vestido de noiva e, em outro dia, usou uniforme listrado em preto-e-branco após ter saído da prisão.

Elis Regina (Foto: Divulgação)

De uma forma mais contida, Elis Regina também trazia uma imagem de moda, mas aqui era mais sofisticada, com calças de cintura alta, macacões com cintura marcada, estampas, peças de alfaiataria e influência hippie, bem como elementos andrógenos e seu cabelo curtinho, que se tornou referência. Aqui não temos nada muito montado para chocar o público, e é exatamente por isso que ela também se torna uma interessante referência de estilo.

Enquanto Bowie construía personagens para se revelar e se rebelar através deles, Ney Matogrosso transformava o próprio corpo em linguagem e arte e Rita Lee transformava toda a sua irreverência em estilo e estética.

O figurino, como já deu para perceber aqui, não era apenas algo para se vestir, mas comunicava pontos-chave do artista: quem ele era, como se posicionava social e politicamente, qual público visava alcançar, qual era o seu personagem e quais valores trazia. Aqui, poderia até ainda não existir a profissão consolidada do stylist, mas seu conceito já estava todo formado.

Hoje, temos todo um mercado voltado para a imagem: stylist, figurinista, diretor criativo, cabeleireiro, fotógrafo, designer, marcas, assessoria… Agora, a imagem do artista é profundamente estudada e calculada. E isso pode ter afetado diretamente a espontaneidade que poderia fazer sentido naquele momento, como algo estranho, exagerado ou até meio inadequado. E aí, quando tudo é friamente pensado para comunicar e ser perfeito, ainda há espaço para personalidade?

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