Jornalista, fotógrafo e consultor. Escreve desde poemas de amor a ensaios sobre política. É editor no Termômetro da Política e autor de Emagreça bebendo cerveja. Twitter: @gesteira.
Jornalista, fotógrafo e consultor. Escreve desde poemas de amor a ensaios sobre política. É editor no Termômetro da Política e autor de Emagreça bebendo cerveja. Twitter: @gesteira.
Deveria ter sido preso
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Então deputado Jair Bolsonaro na votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff na sessão da Câmara dos Deputados (Foto: Reprodução/YouTube)

Nem tudo de ruim que acontece no Brasil é por culpa do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Bolsonaro é culpado pela crise econômica sem precedentes, pelo desemprego recorde, pelo atraso na compra de vacinas contra covid-19 em plena pandemia, assim como pelas mortes de milhares de brasileiros que não tiveram acesso aos imunizantes.

Se procurar direitinho aparecem outras culpas para se colocar na conta do presidente. O que não dá é dizer que ele é culpado de tudo.

O pior de Bolsonaro não é o mal que ele causa por seu desgoverno, mas tudo o que ele representa e tem aflorado nos perfis mais conservadores.

Chega a ser assustador viver em um país onde um apresentador de TV ganha dinheiro e audiência com atitudes machistas e homofóbicas; ou no país em que um cantor ganha 200 mil seguidores em uma rede social digital após vazar um vídeo dele batendo na ex-mulher.

Foi preciso uma reação de instituições sérias para conter esse atos. Ao menos as instituições preservam o bem-estar social, ou algumas delas. Se todas as instituições viessem funcionando, Bolsonaro teria sido preso no dia da votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) na Câmara dos Deputados, em 17 de abril de 2016. Ao proferir o seu voto, o então deputado Jair Bolsonaro homenageou o torturador de Dilma na ditadura militar.

Estes homens odiosos como Bolsonaro estão à solta, despidos da vergonha que escondia o lado monstruoso sob o véu do bom senso. Hoje, não. Eles fazem questão de expor tudo o que há de pior na humanidade.

Desaforo na praia

No último domingo (18) eu tive a sorte de ir logo cedo à praia de Intermares, em Cabedelo, Litoral da Paraíba. Esposa e filho pequeno estavam de fato se banhando na areia enquanto eu ia na calçadinha comprar um coco para eles.

Daí um um senhor me chama pra conversar. O perfil branco, idoso e de classe média-alta já me deixa com um pé atrás, mas lá fui eu, tentando ainda driblar a pandemia.

— Vem cá pra eu te dizer uma coisa.

— Diga daí — respondi.

— Venha cá — ele insistiu, sendo inconveniente.

— Diga que eu estou ouvindo — e finquei o pé, mostrando que não me aproximaria mais.

— É que tem muito vagabundo tomando aliança aqui na orla. Tenha cuidado. Lhe chamei pra alertar você.

— Tou sabendo — respondi encerrando a conversa e já me afastando. Ele continuou a falar:

— Dia desses peguei um na Lagoa. Ele tentou roubar minha aliança, mandei cortar o dedo dele.

— Como é a história? — questionei, duvidando.

— Foi difícil. Tiveram que arrumar um canivete, não é fácil arrancar um dedo. Mas conseguimos, foi um chororô danado. Depois a polícia chegou, quiseram me prender. Já pensou?

— Deveria ter sido preso — respondi.

— Prenderam. O menino ficou lá preso — disse, triunfante.

— Não, o senhor deveria ter sido preso. O senhor é o bandido! — e saí sem dar mais ouvidos enquanto ele esbravejava qualquer coisa.

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