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Carros fabricados no Brasil chegam mais baratos ao consumidor no Paraguai; entenda
Termômetro da Política
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Um paradoxo chama atenção no mercado automotivo da América do Sul: modelos produzidos no Brasil são vendidos mais baratos no Paraguai do que nas concessionárias brasileiras. A diferença chega a 38% em alguns casos, mesmo sem considerar frete ou câmbio.

Chevrolet Sonic, hatch fabricado no Brasil e recém-lançado, custa R$ 30 mil a menos no Paraguai (Foto: Divulgação)

O Chevrolet Sonic, hatch fabricado no Brasil e recém-lançado, parte de R$ 129.990 no mercado nacional. No Paraguai, o mesmo carro é oferecido por US$ 19.900 — o equivalente a cerca de R$ 99,5 mil na cotação atual. A diferença supera R$ 30 mil, ou 23%.

No Fiat Argo, produzido em Betim (MG), a disparidade é ainda maior. No país vizinho, o modelo sai por US$ 11.990 (cerca de R$ 60 mil), contra R$ 96.980 no Brasil — redução de quase R$ 37 mil, ou 38%. Além disso, a versão de entrada vendida no Paraguai já traz itens como Android Auto e Apple CarPlay sem fio, equipamentos que no Brasil só aparecem em versões mais caras.

O Hyundai HB20, fabricado em Piracicaba, também ilustra o fenômeno: US$ 14.990 no Paraguai (aproximadamente R$ 75 mil) contra R$ 96.140 no Brasil, diferença superior a R$ 21 mil (22%).

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A principal explicação está na tributação. Quando o veículo é exportado, ele deixa de carregar os impostos que incidem sobre as vendas no mercado interno brasileiro.

“A máxima da tributação internacional é a não exportação de impostos. Nesse sentido, os veículos exportados não são sujeitos à incidência dos tributos que mais pesam na carga tributária sobre veículo, isto é, IPI, ICMS, PIS e Cofins”, explica Gabriela Rosa, coordenadora jurídica e tributária na BMJ Consultores.

No Brasil, esses tributos — que podem representar cerca de 25% de IPI, 17% de ICMS e 11,6% de PIS/Cofins, dependendo do modelo — são embutidos no preço final pago pelo consumidor. “O consumidor interno paga todos esses tributos dispensados para a exportação”, completa a especialista.

No Paraguai, o carro passa a ser tributado pelo sistema local, mais simples e com carga menor. O país adota a lógica conhecida como “Triple 10”: 10% de IVA (equivalente ao imposto sobre valor agregado), 10% de Imposto de Renda Empresarial e 10% de Imposto de Renda Pessoal, além do ISSC (Imposto Seletivo ao Consumo), que varia conforme o produto.

Além da carga tributária elevada, o Brasil impõe custos adicionais relacionados à burocracia fiscal, obrigações acessórias, litigiosidade e complexidade operacional — o chamado Custo Brasil. “Isso gera custos administrativos e financeiros relevantes para toda a cadeia automotiva”, afirma Juliana Zobaran, advogada tributarista.

O Paraguai não possui uma indústria automotiva local relevante a proteger e depende de importados. Isso torna o mercado mais aberto e competitivo, incentivando as montadoras a praticarem preços mais agressivos para conquistar espaço. “A diferença de carga tributária entre os dois países é tão expressiva que já explica a maior parte da diferença de preços, mas o ambiente competitivo paraguaio empurra os preços ainda mais para baixo”, resume Gabriela Rosa.

Uma simulação elaborada por Juliana Zobaran ilustra o impacto. Considerando um carro com custo de fabricação mais margem da montadora de R$ 100 mil, o preço final no Brasil chegaria a cerca de R$ 150,5 mil após todos os impostos, margem de concessionária, logística e emplacamento. No Paraguai, o mesmo veículo sairia por aproximadamente R$ 132,7 mil — diferença de R$ 17,8 mil, ou quase 12%.

Comprar no Paraguai e trazer para o Brasil, no entanto, não costuma compensar. Para nacionalizar o veículo, o consumidor precisa pagar Imposto de Importação de 35%, além de IPI, PIS/Cofins-Importação, ICMS, taxas, documentação aduaneira, homologação e registro. Para a maioria dos modelos populares, a conta não fecha.

Com informações do portal UOL.

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