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Comenda Odé Kayodê celebra resistência e combate ao racismo religioso
Beatriz Sena - sob supervisão de Felipe Gesteira
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O reconhecimento de quem atua na defesa da liberdade religiosa, da igualdade racial e dos direitos das comunidades tradicionais marcou a manhã desta quinta-feira (3), no Ilê Axé Opô Omidewá, em João Pessoa. A casa recebeu a edição 2026 da Comenda Odé Kayodê, iniciativa do Ilê Axé Opô Omidewá e do Instituto Cena Preta, que homenageou lideranças religiosas, representantes do poder público, do sistema de Justiça e da sociedade civil. 

Comenda Odé Kayodê reconhece pessoas e instituições que têm atuação relacionada à promoção da igualdade racial e ao enfrentamento do racismo religioso (Foto: Felipe Gesteira)

Concedida pela Mãe Lúcia Omidewá, mãe de santo e idealizadora da comenda, a honraria busca reconhecer pessoas e instituições que têm atuação relacionada à promoção da igualdade racial e ao enfrentamento do racismo religioso.

O nome da comenda também remete à ancestralidade e à trajetória de Mãe Stella de Oxóssi, quinta ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, na Bahia, cuja atuação se tornou referência na defesa das religiões de matriz africana, dos terreiros, da cultura afro-brasileira e dos direitos humanos.

Luta e representatividade

Em entrevista ao Termômetro da Política, Mãe Lúcia destacou a presença do Governo Federal entre os apoiadores da iniciativa, especialmente por meio do Ministério da Igualdade Racial, assim como reforçou a participação institucional como forma de representar um avanço na forma como as políticas voltadas aos povos e comunidades de terreiro são tratadas pelo poder público.

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“Enfrentar o racismo e a intolerância religiosa não é uma pauta que se limita à população negra. É uma agenda mais ampla de proteção às comunidades historicamente vulnerabilizadas e de garantia de direitos para todos”, disse.

Ela celebrou ainda a mudança institucional que levou a pauta da igualdade racial de uma secretaria para a estrutura de um ministério. 

Homenageados da Comenda Odé Kayodê – Edição 2026

Entre as homenageadas esteve a procuradora da República Janaína Andrade de Sousa, primeira mulher a assumir a chefia do Ministério Público Federal na Paraíba. Emocionada, ela reconheceu a importância da resistência construída pelos povos de terreiro e afirmou que a atuação das instituições públicas ainda é pequena diante dos desafios enfrentados por essas comunidades.

“Nós aprendemos com a senhora [Mãe Lúcia] e com todos aqui. A nossa atuação é muito pequena dentro da resistência que os senhores e as senhoras nos ensinam todos os dias.”

A promotora de Justiça Fabiana Maria Lobo da Silva, do Ministério Público da Paraíba, também recebeu a comenda. A relação dela com a pauta do racismo religioso foi fortalecida a partir de um caso envolvendo Mãe Lúcia e uma empresa de transporte por aplicativo. A partir da denúncia, outros episódios de violações contra pessoas de religiões de matriz africana chegaram ao conhecimento do Ministério Público.

“Falo isso de um certo modo feliz pela confiança que o povo de terreiro tem no meu trabalho, mas triste por ainda hoje no século 21, a gente ainda tem situações feito essa, de racismo religioso, de intolerância religiosa. Isso quando a gente tem uma constituição desde 1988 que garante a liberdade de crença para todos. Então é lamentável”, complementou.

Memória e ancestralidade

Entre as lideranças religiosas homenageadas estão Mãe Renilda de Oxóssi, referência na preservação das tradições da nação Jeje Savalu na Paraíba, e Iyá Verônica, ialorixá e ativista dos direitos humanos e da cultura negra, reconhecida por sua atuação no fortalecimento das religiões de matriz africana no estado.

“Porque o que tem que crescer não é a minha casa, não é a de Mãe Lúcia. E a minha luta e a de Mãe Lúcia é a gente querer que todas as casas cresçam. E, para crescer, só basta uma coisa: a gente querer estudar, buscar conhecimento e ir para a frente com o nosso orixá. Eu sou uma mulher de orixá, eu sou uma mulher de Oxóssi. Eu sou uma mulher que nada, nada faz eu deixar essa religião”, ressaltou Mãe Renilda.

A Fundação Sistêmica da Paraíba também recebeu a homenagem por sua atuação em projetos educativos e comunitários voltados ao enfrentamento do racismo, ao letramento racial e à promoção da equidade.

Outro destaque foi a trajetória da advogada Carla Uedler Moreira, que atua na defesa dos direitos humanos e está à frente da Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial de João Pessoa.

“Eu não imaginava que a gente poderia ser, né, dentro desses espaços que nós estamos, principalmente dentro de gestões públicas ou espaços públicos, nós sabemos o quanto a dificuldade vem primeiramente dentro do espaço que a gente ocupa”, agradeceu Carla diretamente a Mãe Lúcia pela homenagem na comenda.

Também foram homenageadas Ana Maria França, promotora de Justiça do Ministério Público da Paraíba; Jéssica Araújo de Souza, gestora pública e diretora de Políticas para Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana e Povos de Terreiro do Ministério da Igualdade Racial; e Luzineide Miranda Borges, a Luzi Miranda, cuja atuação está relacionada à promoção da igualdade racial e dos direitos humanos.

“A luta não termina aqui”

O encerramento da entrega das comendas teve como homenageado Ronaldo dos Santos, liderança quilombola do Rio de Janeiro e secretário de Políticas para Quilombolas, Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, Povos de Terreiros e Ciganos do Ministério da Igualdade Racial.

Ao falar sobre o significado da homenagem, Ronaldo ressaltou o papel histórico dos terreiros na preservação das tradições de matriz africana e na construção da vida comunitária brasileira.

O secretário também fez uma reflexão sobre a responsabilidade do poder público diante de uma dívida histórica com a população negra e com as comunidades tradicionais. “Tendo feito tudo o que a gente puder fazer, isso está muito distante da dívida que esse Estado brasileiro tem com o nosso povo”, afirmou. “Essa luta não termina aqui”, concluiu Ronaldo dos Santos.

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