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Especialistas classificam Smart Sampa como “queijo suíço” após nova falha expor 17 mil câmeras de parceiros
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Um especialista em cibersegurança, que pediu para não ser identificado, definiu a plataforma de monitoramento por meio de câmeras da Prefeitura de São Paulo, o Smart Sampa, como um “queijo suíço”. A reportagem ouviu outros profissionais da área e todos manifestaram preocupação com as brechas. Um dos problemas que possibilita o acesso é o IDOR (sigla em inglês para “referência direta insegura a objeto”). No sistema, a falha permite trocar o código de um cadastro ou documento na página online e acessar informações restritas, sem verificar se você tem autorização.

Gestão do prefeito Ricardo Nunes diz que vai apurar o caso (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

O pesquisador de segurança digital Davi Mikael Cezar, conhecido como Penegui, analisou informações públicas sobre a estrutura do Smart Sampa. Para ele, a organização dos endereços de acesso sob o mesmo domínio usado para divulgar o produto pode facilitar entradas indevidas. “Se isso [o domínio] for comprometido, todas as câmeras, dependendo de como foi formado o sistema, estão comprometidas”, diz. “É em coisas mínimas que um especialista da área de segurança percebe que o sistema foi criado por alguém que não tem experiência no mercado”, completa.

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A Sentinelx tem usado o sucesso do Smart Sampa para vender o mesmo modelo para cidades pelo país. A reportagem localizou subdomínios relacionados à empresa com os nomes de Guarulhos, Campinas, Joinville, Goiânia, Mairiporã e Catanduva. A Folha de S.Paulo revelou que falhas no Smart Sampa, de fato, permitiam a usuários acessar câmeras de outros municípios, segundo documentos técnicos e relatos de especialistas. O UOL também teve acesso aos mesmos dados. Entre os registros está o acesso a uma câmera de leitura de placas em Campo Grande (MS) a partir de um login de São Paulo. Os vazamentos e falhas do sistema não são de hoje. Penegui encontrou 15 credenciais de acesso ao Smart Sampa em bases de dados vazados, com registros de 2024, 2025 e 2026. Segundo o pesquisador, os dados foram capturados por um programa malicioso conhecido como infostealer, que rouba informações de dispositivos infectados. “Ele vai lá e rouba credenciais salvas no navegador”, explica.

Uma nova falha de segurança na plataforma do Smart Sampa expôs 17 mil câmeras de empresas parceiras da Prefeitura de São Paulo no programa de vigilância. Essa é a segunda brecha de larga escala no sistema revelada em menos de um mês. Em 20 de outubro, o UOL mostrou 58 mil câmeras expostas em outra falha. A nova vulnerabilidade do sistema permitiu que o UOL acessasse diretamente, por cinco dias, milhares de câmeras hospedadas na Monuv, empresa que oferece serviço de nuvem para câmeras de segurança. Além dos aparelhos da própria prefeitura, o Smart Sampa trabalha com empresas parceiras conveniadas ao sistema. Os links foram retirados do ar na sexta-feira (30), um dia depois de a reportagem questionar a prefeitura, a Sentinelx —empresa responsável pela plataforma tecnológica do Smart Sampa— e a Monuv sobre o novo problema. Enquanto as câmeras estavam no ar, a reportagem acessou o sistema sem a necessidade de uso de senha ou qualquer confirmação de segurança. Imagens ao vivo na rua das casas em que moram autoridades e ex-autoridades, como o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes e os ex-presidentes Michel Temer e Fernando Henrique Cardoso, eram facilmente acessadas. Também foi possível acompanhar a entrada de clubes da elite paulistana, como a Hebraica e a Sociedade Hípica Paulista.

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A nova brecha é diferente da primeira. A falha estava no código-fonte de um site relacionado à Sentinelx, segundo uma fonte do setor de cibersegurança. Arquivos de código na internet revelavam os endereços dos serviços usados pela plataforma para buscar dados de empresas e câmeras. Isso permitia obter cadastros, documentos dos parceiros e links completos das transmissões, que podiam ser abertos fora da plataforma. Assim como na primeira falha, o novo caso também possibilitava acesso a dados protegidos pela LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) —dessa vez, relacionados aos parceiros cadastrados. A primeira reportagem do UOL sobre o caso mostrou imagens de câmeras de escolas, unidades de saúde e equipamentos públicos da cidade. Para confirmar o acesso, a reportagem se gravou acenando para oito câmeras nos Campos Elíseos, na região central da cidade. O UOL voltou às ruas do bairro na última semana. Na terça-feira (27), a reportagem mostrou para a câmera da alameda Cleveland uma edição impressa do jornal Folha de S.Paulo daquele dia. Na quinta (29), repetiu os acenos em câmeras das ruas Helvétia e Conselheiro Nébias, ambas no mesmo bairro.

Responsável pela tecnologia do Smart Sampa, a Sentinelx foi criada um mês após a assinatura do contrato do programa, em 2023. O consórcio Smart City, originalmente formado por CLD, Flama Serviços, PK9 e Camerite, venceu a licitação com proposta de R$ 9,8 milhões mensais após a desclassificação de duas concorrentes —uma delas havia oferecido R$ 9,2 milhões. O contrato prevê R$ 588 milhões por cinco anos. A Sentinelx entrou formalmente no consórcio em substituição à Camerite por meio de um aditivo assinado em dezembro de 2025. Desde aquele ano, tem entre seus sócios Jorge Marques Moura, também sócio da CLD, que assinou o documento como administrador do consórcio. A gestão Ricardo Nunes nega que os dados estivessem públicos na internet e diz que vai apurar o caso.

A Secretaria Municipal de Segurança Urbana informa que a lista com links mencionada pela reportagem nunca esteve pública ou disponível para acesso na internet. Trata-se de uma planilha de Excel resultado de um trabalho de análise de cibersegurança da plataforma do Smart Sampa, realizado pela PRODAM e iniciado no último dia 20, a pedido do prefeito Ricardo Nunes. Ela foi apresentada nesta semana à SMSU para medidas adicionais de proteção, o que prontamente foi feito. O Programa Smart Sampa segue operando regularmente, sem evidências de ataques externos. É importante destacar que as mais de 20 mil câmeras próprias do Município não estão na planilha enviada ilegalmente à reportagem. O envio ao UOL da planilha com links de câmeras de empresas parceiras do Smart Sampa configura um novo ato criminoso de vazamento de dados sigilosos e confidenciais. A gestão municipal reforça que o arquivo foi encaminhado ilegalmente à reportagem e que serão adotadas as providências administrativas e legais cabíveis para a devida investigação e responsabilização dos envolvidos. E reitera: não há sinais de ataque ao sistema. Além da PRODAM, o Consórcio Smart City SP, responsável pela operação do programa, também contratou uma empresa independente para a realização de análises de segurança. Em relação às câmeras de parceiros privados integradas ao Programa Smart Sampa, a Secretaria informa que essas empresas possuem infraestrutura tecnológica própria, sendo responsáveis pela administração, operação e pelos mecanismos de segurança de seus respectivos ambientes e equipamentos. Dessa forma, a integração não implica a transferência da gestão ou do controle da infraestrutura tecnológica dos parceiros ao Município, permanecendo sob responsabilidade de cada empresa a proteção de seus próprios sistemas e equipamentos.

A Sentinelx não respondeu a email da reportagem. Já a Monuv afirmou que “mantém uma estrutura de segurança da informação que inclui controles de acesso, autenticação e proteção de dados e transmissões, em linha com as boas práticas do setor”. Segundo a empresa, na colaboração com programas de segurança pública, o compartilhamento de imagens é feito por clientes e parceiros devidamente homologados nesses programas. “As empresas de segurança aderem ao programa por meio de convênio firmado diretamente com a Prefeitura e são responsáveis pela relação com seus clientes. No caso da integração com o Smart Sampa, o acesso às câmeras compartilhadas através da plataforma da Monuv segue as especificações de acesso e segurança definidas pelo próprio Smart Sampa”.

Com informações do portal UOL.

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