O Ueno Bank era um dos principais bancos do Paraguai e, segundo dados da própria instituição, tinha 3 milhões de clientes, o equivalente a 60% da população adulta do país. São pessoas que estão com suas economias bloqueadas. Também havia milhões de dólares em recursos públicos, especialmente da previdência social, administrados pelos bancos. A crise no Ueno Bank, que sofreu intervenção do Banco Central do Paraguai na terça após ser constatado que seu índice de solvência caiu para menos da metade do mínimo exigido, levou à renúncia do presidente paraguaio, Santiago Peña, nesta quinta (5).

Reportagens na imprensa paraguaia indicam que os recursos públicos paraguaios no Ueno somam cerca de 850 milhões de dólares, representando quase 2% do PIB. O Fundo de Garantia de Depósitos do Paraguai cobre depósitos de até 228 milhões de guaranis por pessoa (cerca de R$ 211 mil). O Banco Central do país chegou a garantir o ressarcimento e afirmou que ainda precisa avaliar se conseguirá cobrir valores acima desse limite.
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A intervenção no banco é o desfecho de um escândalo que tem marcado o governo do presidente Santiago Peña desde que ele assumiu o cargo, em 2023. Peña figurava como acionista da Ueno Holding, que reúne empresas como a Ueno Seguros, a itti e o Grupo Vázquez, principal acionista do Ueno Bank. No início de 2025, o presidente afirmou que havia deixado de ser acionista da holding e negou qualquer ligação com o banco. “Eu fui investidor, sou economista, me especializei em Finanças e fiz um investimento há seis anos na empresa Credi Centro, que posteriormente se transformou na Ueno Holding. Nunca foi o banco Ueno. Não tenho nenhuma ligação com o banco Ueno”, declarou a um grupo de jornalistas em abril de 2025. Pouco depois de tomar posse, Peña nomeou Carlos Carvallo, então presidente-executivo do Ueno Bank, para comandar o Banco Central do Paraguai. A decisão foi criticada por pessoas que apontaram um conflito de interesses.
O economista Alexandre Barros da Costa, pesquisador que acompanha a economia paraguaia na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e Universidade Federal do Paraná (UFPR), estima que a crise no Ueno pode afetar dezenas de milhares de brasileiros que moram no país. Isso porque, segundo Costa, o banco atrai imigrantes pela facilidade de abertura de contas. “A falta de burocracia e o cadastro rápido fizeram com que ele se tornasse a primeira opção para milhares de estudantes de medicina, pequenos comerciantes da fronteira, produtores rurais, investidores”, diz o economista. “E essa paralisação gera crise imediata no pagamento de aluguel, mensalidade, alimentação dessas pessoas.”
Segundo estimativas do Ministério das Relações Exteriores, em 2025 havia 270 mil brasileiros vivendo no Paraguai, a maior comunidade na América do Sul, e a terceira no mundo, atrás apenas de EUA e Portugal. Mas tem havido uma onda recente de brasileiros indo ao Paraguai, como revelado pela BBC News Brasil em abril deste ano, motivados por questões econômicas e políticas.
A brasileira Renata de Brito, de 44 anos, tomou um susto quando abriu o aplicativo do Ueno Bank, no Paraguai, e não conseguiu mais acessar sua conta, na terça-feira (3). Era no banco que ela guardava todas as suas economias e recebia os pagamentos feitos pelos seus clientes na lanchonete que mantém na cidade de Hernandarias, perto da fronteira com o Brasil. “Me falaram que estava bloqueado quando tentaram fazer um pagamento para mim. Quando fui ver, não acessava mais nada. Estou muito preocupada pelo meu negócio”, diz Renata, que usava a maquininha de pagamentos do banco.
Renata de Brito diz que escolheu o banco justamente pela facilidade e por ser uma empresa disseminada no país. “Era um banco que patrocinava clubes de futebol, com muita propaganda. Então, essa facilidade atraía”, diz ela, que se mudou para o país para ter uma vida mais tranquila após ser afetada pelas enchentes no Rio Grande do Sul. Segundo a brasileira, ela já havia pago todas as contas que venciam esse mês. Mas ela teme que até o fim de novembro, quando precisa pagar a parcela de um apartamento que comprou, não tenha seu dinheiro de volta. O pouco que ela tem em recursos físicos é para manter o caixa do seu negócio, uma lanchonete. “O meu plano B é tentar realocar recursos que ainda recebo no Brasil devido à venda de um sítio”, explica.
Uma dessas pessoas é a empresária Erika Silva, 41 anos, que está de malas prontas para se mudar de vez de São Paulo para o Paraguai. Como já tem feito negócios de importação e exportação no país, ela abriu uma conta no Ueno Bank e tem deixado um valor baixo para gastos pontuais quando está no país. Agora, o recurso está bloqueado. “Como era pouco, está tudo bem. Não vou voltar atrás de ir para lá, porque pior que está aqui no Brasil não fica”, avalia. Segundo a empresária, há muitos brasileiros com recursos presos, mas a maioria não tinha toda a economia investida no Ueno, justamente por ser um banco digital. Mas, diz ela, isso não mudou “o pensamento dos brasileiros que se mudaram”. Em geral, são pessoas em busca de pagar menos impostos e insatisfeitas com a política brasileira. Perguntada se a renúncia de Peña, que é de direita, e o envolvimento dele na crise poderiam levar a uma reavaliação sobre as expectativas sobre o Paraguai, Erika afirma que não. “O meu único receio é se assumir um político de esquerda. Vou ser sincera, se isso acontecer, aí eu não vou mais investir no Paraguai”, diz.
Segundo o economista Alexandre Barros da Costa, ainda vai levar um tempo para saber com precisão a extensão total dos danos da crise do Ueno à economia paraguaia. Mas o pesquisador avalia que os danos tendem a ser mais de curto prazo. “É fato que agora, no curto prazo, haverá um choque na economia paraguaia pela redução do consumo das famílias e pelo impacto nos pequenos comerciantes que dependem dessa massa salarial bloqueada no Ueno para girar o negócio.” “Mas, apesar dessa crise, os dados macroeconômicos do Paraguai como um todo estão estáveis. Não há que se falar em desespero em termos de macroeconomia. Não avalio que o sistema financeiro enfrenta uma crise em função dessa intervenção”, defende.
Segundo Costa, o crescimento do Paraguai nos últimos anos, acima da média da região, está também ligado ao processo de bancarização do país, com a entrada de milhões de pessoas no sistema bancário. “Os depósitos privados das pessoas físicas e jurídicas no sistema bancário têm saltado 19% ao ano. É um ambiente de inclusão financeira, de fintechs e bancos digitais que impulsionaram a abertura massiva de contas e contribuíram com crescimento do PIB paraguaio.”
Para o professor, chamar o caso Ueno de “Master paraguaio”, em comparação com a crise do banco de Daniel Vorcaro no Brasil, é pertinente em alguns aspectos, especialmente no que diz respeito à alocação de recursos públicos da previdência e o modus operandi de uma fraude, se ela for comprovada. “São bancos que utilizaram dessa proteção financeira do Fundo Garantidor pra atrair investimentos e, depois, quando ‘quebra’, quem arca são bancos sérios do mercado financeiro que aportam dinheiro no fundo. E claro que esses bancos terão que recompor o fundo e pode repassar para os clientes. Então, a sociedade arca sim pela má gestão”, diz. “Mas o impacto proporcional no Paraguai tende ser significativamente maior e socialmente mais grave que o Master, embora ache que a economia paraguaia não se desestabilizará”, completa.
Agora, no país, tem havido uma corrida a outros bancos para pessoas que tinham conta no Ueno tentarem novo acesso ao sistema financeiro. A brasileira Renata de Brito tem corrido para abrir uma nova conta e conseguir uma nova maquininha, enfrentando as filas que tomaram conta das agências pelo país. Ela espera que haja uma resolução no país, com mobilização para devolução dos recursos nos próximos dias. “Mas sinceramente não sei se renúncia do presidente vai ajudar nessa resolução”, diz, aflita. O episódio expõe a fragilidade de um modelo de bancarização acelerada que atraiu milhares de brasileiros e agora exige reorganização urgente do sistema financeiro paraguaio.
Com informações da BBC.