A ONG Instituto Conhecer Brasil, responsável por um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalação de pontos de wi-fi gratuito na periferia, apresentou pelo menos R$ 16,5 milhões em documentos fiscais irregulares para comprovar despesas do convênio. Entre os problemas identificados estão notas canceladas, faturas sem valor fiscal e documentos emitidos pela própria entidade para justificar gastos.

O levantamento foi feito a partir das prestações de contas entregues pela organização à gestão Ricardo Nunes (MDB). O contrato previa a instalação de 5 mil pontos de wi-fi até junho de 2025, mas, até o momento, apenas 3.200 foram entregues. A ONG é presidida pela empresária Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up Entertainment, produtora do filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Entre os casos mais graves está a contratação da empresa Make One Tecnologia Digital Ltda. para locação de equipamentos. Em vez de notas fiscais, a ONG apresentou quatro faturas que somam R$ 8,5 milhões. Esses documentos não têm valor fiscal, pois não foram registrados no sistema de nota fiscal eletrônica da Prefeitura de São Paulo. Três das faturas foram emitidas no mesmo dia e têm numeração sequencial.
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Outro exemplo envolve a empresa Complexsys Soluções Integradas Ltda., de André Feldman. Em novembro de 2025, a empresa emitiu uma nota de R$ 2 milhões por serviços de verificação e reparo técnico de equipamentos. O documento, no entanto, foi cancelado no mesmo dia em que foi emitido, segundo os registros da prefeitura. Mesmo assim, a nota foi incluída na prestação de contas entregue pela ONG em fevereiro deste ano.
A empresa JR Feijão Ltda., contratada para aluguel de equipamentos, também aparece com três notas canceladas, que somam mais de R$ 406 mil. A maior delas, de R$ 199,4 mil, foi emitida em 10 de abril de 2025 e cancelada seis dias depois, mas continuou sendo usada para justificar despesas.
A documentação da ONG também inclui notas fiscais emitidas pelo próprio Instituto Conhecer Brasil para si mesmo, no valor total de R$ 1,4 milhão. Um parecer técnico da Secretaria de Tecnologia da Prefeitura, de fevereiro de 2026, apontou que a entidade não poderia emitir notas para si própria e identificou ainda R$ 925 mil em pagamentos em duplicidade.
Apesar das irregularidades, o parecer recomendou a aprovação da prestação de contas “com ressalvas”, condicionada à devolução de R$ 930.256,87. Segundo a prefeitura, o valor foi integralmente restituído e o contrato foi renovado para a instalação dos pontos restantes.
Karina Ferreira da Gama afirmou que desconhece os cancelamentos das notas e disse que não tem controle sobre anulações feitas por fornecedores. Sobre as notas emitidas pelo próprio instituto, ela afirmou que foi ela mesma quem apontou os problemas à prefeitura.
O contrato da ONG com a Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda. também está sob suspeita. A empresa, que recebeu mais de R$ 2 milhões para instalar mais de 900 pontos de wi-fi, tinha como sócio Alex Leandro Bispo dos Santos, preso desde fevereiro acusado de feminicídio. Após a prisão, a sociedade foi transferida para outra pessoa que reside no mesmo endereço do empresário.
Karina disse que não reconhece o contrato assinado com um representante identificado apenas como “Alex” e levantou a possibilidade de fraude. O documento, no entanto, foi incluído pela própria empresária no drive de prestação de contas enviado à prefeitura.
Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia disse que “desconhece a metodologia e os resultados que levaram aos valores mencionados pela reportagem e rechaça as respectivas ilações”.
“A execução do contrato para o programa é monitorada rigorosamente e não há nenhuma decisão definitiva ou processo administrativo que aponte a existência de irregularidades estruturais, desvios ou ilegalidades. Em 2024 foram identificadas inconsistências na prestação de contas do exercício, cujos valores — cerca de R$ 930 mil — foram integralmente devolvidos ao Município. Cabe ressaltar que o valor unitário pago ao ICB não engloba apenas o link de internet, mas toda a infraestrutura necessária, incluindo hardware, obras civis e elétricas, mapeamento, projetos executivos, entre outras.
Já a manutenção de “ressalvas” é um procedimento comum em auditorias públicas, demonstrando, inclusive, controle e fiscalização sobre as prestações de contas. Além disso, o Instituto em questão possui experiência em inserção territorial, articulação comunitária e viabilização do acesso em locais de extrema complexidade — fatores previstos no chamamento público e fundamentais para a execução do serviço. A parceria foi estabelecida por chamamento público transparente, aberto pelo período de 30 dias e que cumpriu todas as exigências legais do edital.”
A gestão Ricardo Nunes também afirmou que “a produção do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro não recebeu recursos municipais e qualquer relação entre a contratação do Instituto Conhecer Brasil e a produção cinematográfica é descabida”.
“O contrato do ICB foi fechado em junho de 2024, pelo menos um ano antes do início da produção do filme. Já a SPCine foi procurada para autorização das filmagens apenas em outubro de 2025, ou seja, um ano e quatro meses após o contrato com o ICB ser firmado – seguindo exatamente o mesmo trâmite usado em todas as solicitações recebidas pelo Município para essa finalidade”, declarou.
“A administração municipal repudia qualquer tentativa da imprensa de descredibilizar um serviço de extrema importância para a população por meio de relações que não existem nem nunca existiram. O Programa Wifi Livre está em pleno funcionamento com 3.200 pontos instalados, que registram cerca de 760 milhões de acessos”, declarou a administração municipal.
Com informações do portal g1.