A Polícia Civil de São Paulo deflagrou nesta segunda-feira (1º) uma operação contra o Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade suspeita de fraude e desvio de recursos públicos em um contrato de R$ 108 milhões firmado com a Prefeitura de São Paulo para a instalação de pontos de internet wi-fi na cidade. O valor do contrato foi elevado para R$ 157,1 milhões por meio de aditivos assinados pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB).

O instituto pertence à empresária Karina Ferreira da Gama, que também é sócia da produtora Go UP Entertainment Ltda., responsável pela produção do filme “Dark Horse”, que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. Tanto a ONG quanto a produtora funcionam no mesmo endereço, inicialmente na Avenida Paulista e, posteriormente, na rua Hadock Lobo, nos Jardins, sem que as mudanças tenham sido atualizadas nos registros oficiais.
A operação cumpre mandados de busca e apreensão nos endereços ligados a Karina Ferreira da Gama e na sede da Secretaria Municipal de Tecnologia e Inovação, responsável pela contratação. Os policiais buscam computadores, documentos e celulares para avançar nas investigações.
De acordo com o inquérito da 2ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro (DICCA), pelo menos R$ 26 milhões teriam sido repassados à ONG sem a devida prestação de serviços. A investigação também identificou o uso de ao menos R$ 4 milhões em notas fiscais falsas para justificar despesas.
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A Polícia Civil apontou “grave comprometimento da lisura administrativa e financeira” desde a origem da contratação. Segundo o delegado, o chamamento público contou com a participação exclusiva do ICB, entidade que não possuía histórico, experiência ou capacidade técnica no setor de telecomunicações, limitando-se a feiras de livros e eventos literários ou religiosos.
Os valores cobrados pela ONG também estão acima do praticado no mercado. Enquanto a Prodam, empresa pública municipal de tecnologia, prestava serviços semelhantes por R$ 230,00 na implantação e R$ 306,00 na manutenção mensal por ponto, o contrato com o Instituto Conhecer Brasil previa R$ 1.800,00 por ponto instalado.
A investigação revelou ainda que a Secretaria de Inovação e Tecnologia repassou valores mensais sem a instalação completa dos 5 mil pontos previstos. Embora o cronograma exigisse 5 mil pontos até junho de 2025, apenas 3.200 foram instalados. Três termos aditivos foram assinados em curtos intervalos de tempo. Além disso, a prefeitura realizou antecipação de pagamentos no valor de R$ 26 milhões sem a devida contraprestação, incluindo repasses superiores a R$ 11 milhões em julho e agosto de 2024 para apenas seis pontos que efetivamente funcionavam.
A ONG também é investigada pelo Ministério Público de São Paulo. A reportagem identificou, nas prestações de contas, o uso de notas fiscais canceladas e de notas emitidas pelo próprio instituto para si mesmo, totalizando mais de R$ 1,4 milhão. Um parecer técnico da Secretaria de Tecnologia, de 26 de fevereiro de 2026, apontou irregularidades, incluindo notas indevidas e pagamentos em duplicidade, mas aprovou a prestação de contas com ressalvas, condicionada à devolução de R$ 930.256,87.
A empresária Karina Ferreira da Gama afirmou desconhecer as notas canceladas por fornecedores e informou que os problemas nas notas do próprio instituto foram apontados por ela e “já estão sendo resolvidos na prestação de contas que estou preparando para entregar do bimestre”.
A Prefeitura de São Paulo negou irregularidades no contrato e afirmou que “a execução do contrato para o programa é monitorada rigorosamente e não há nenhuma decisão definitiva ou processo administrativo que aponte a existência de irregularidades estruturais, desvios ou ilegalidades”. A gestão Ricardo Nunes também disse que o contrato não tem qualquer relação com a produção do filme sobre o ex-presidente.
Karina Gama mantém relações políticas com aliados de Jair Bolsonaro. Em 2022, prestou serviços de consultoria para a campanha a deputado federal de Mário Frias, recebendo R$ 54 mil. O deputado destinou, via emendas parlamentares, cerca de R$ 2 milhões para o Instituto Conhecer Brasil. Essa transação está sob investigação no Supremo Tribunal Federal por suspeita de falta de transparência.
Outro ponto questionado é o contrato de R$ 12 milhões assinado pela ONG com a Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., empresa cujo dono, Alex Leandro Bispo dos Santos, está preso desde fevereiro acusado de feminicídio. No primeiro contrato, o nome do representante aparecia apenas como “Alex”, sem CPF ou identidade completa. Após denúncias, a empresa alterou sua composição societária.
A empresária afirmou não reconhecer o contrato assinado com “um Alex não identificado” e levantou a hipótese de fraude por parte de um desafeto. No entanto, o documento estava no drive usado por ela para incluir comprovantes de despesas na prestação de contas à prefeitura.
Com informações do portal g1.