Política - -
Instituto fundado por André Mendonça recebeu R$ 5,2 milhões de parceiro de Vorcaro
Termômetro da Política
Compartilhe:

O Instituto Iter, ligado a André Mendonça, recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro Participações, holding de mineração de Lucas Kallas, ex-parceiro de negócios de Daniel Vorcaro. O acerto de abril de 2024 foi um mútuo conversível de R$ 5,9 milhões: o crédito podia virar cota no instituto ou ser cobrado de volta. Em janeiro deste ano o Iter cortou os aportes e começou a devolver. Em fevereiro, Mendonça foi sorteado relator do Master.

Instituto Iter é ligado ao ministro André Mendonça (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

O instituto diz que parou o empréstimo porque “já se encontrava em situação de sustentabilidade financeira”. “Foi assinado um termo aditivo ao Mútuo no qual foi estabelecido o vencimento antecipado da dívida com o início imediato do pagamento dos valores devidos pelo Iter. A taxa de juros determinada foi a taxa SELIC. Até o momento já foram pagos cerca de 5,3% do total da dívida”.

Favorite o Termômetro da Política no Google e acompanhe as notícias mais importantes para o seu dia

Victor Godoy Veiga, presidente do Iter e ex-ministro da Educação, negociou com Carlos Adel de Freitas e Eduardo Soares de Couto, da Cedro. Em nota, o Iter afirma que Mendonça e Kallas não discutiram os termos. O contrato destinava o valor à estruturação e às atividades da entidade, com prazos e parcelas. O instituto diz ter cumprido as cláusulas e “jamais distribuiu a seus acionistas qualquer valor a título de lucro, dividendo ou participação nos resultados”.

“A totalidade dos recursos foi depositada diretamente em conta da pessoa jurídica do Instituto Iter e aplicada, por obrigação contratual e sob acompanhamento contábil, exclusivamente na estruturação e nas atividades da entidade, com registro da respectiva destinação. Não houve, em nenhum momento, utilização dos recursos para finalidade diversa daquela contratualmente estabelecida”.

O Iter nega Vorcaro nas tratativas e diz desconhecer outras “relações societárias ou empresariais eventualmente mantidas pela Cedro Participações ou pelo senhor Kallas”. “Fatos supervenientes ao contrato não afetam a licitude nem a normalidade do mútuo então celebrado, cuja validade se afere pelos seus próprios termos e pela legislação vigente à data de sua celebração”.

Leia também
A hipocrisia de Cármem Lúcia é sedutora

A Cedro afirmou que Vorcaro “jamais teve qualquer relação societária ou vínculo empresarial com os negócios da Cedro Participações ou de suas controladas” e que a “aquisição de participações em companhias de capital aberto – das quais diversos fundos e instituições financeiras como BNDES, BDMG e outros também são acionistas – não configura sociedade comercial”.

Mendonça saiu do Iter no início de setembro. O instituto diz que o ministro “jamais recebeu dividendos, distribuição de lucros ou participações nos resultados” e que ficou no “âmbito acadêmico como docente”. Procurado, não se manifestou.

Kallas, mineiro, descreve a Cedro com faturamento anual de R$ 2,5 bilhões e R$ 2 bilhões investidos, em mineração, agronegócio e logística. No fim de 2023 a Cedro tinha 8% da Biomm, cofundada por Walfrido dos Mares Guia. Em fevereiro de 2024 a WNT, ligada a Vorcaro e Nelson Tanure, comprou ações da mesma empresa; o grupo de Vorcaro chegou a 25% em janeiro de 2025. Kallas ficou cinco anos na Latache Capital e comprou 33% em 2025. A gestora era acionista da Oncoclínicas, que aplicou R$ 478 milhões em CDBs do Master e viu as ações despencarem na liquidação do banco, em novembro de 2025. A Cedro “consolidou sua posição no quadro societário da Biomm em 2023 e ingressou na Latache Capital entre 2024 e 2025” e saiu das duas em abril de 2026 “com o objetivo de concentrar seus investimentos no setor de mineração”.

E-mails no celular de Vorcaro mostram viagem da dupla a Caracas no fim de novembro de 2023, em busca de petróleo. Suítes separadas a US$ 23 mil (R$ 121 mil), pagas por Vorcaro. Em 4 de dezembro de 2023, três dias após a última diária, os dois entraram no Palácio do Planalto no mesmo minuto, 15h43. Kallas e a Cedro não figuram na Compliance Zero. A assessoria diz que as viagens “integram sua agenda regular de prospecção internacionais para a holding”. “Ao longo do ano passado, ele esteve em mais de 17 países em compromissos comerciais e institucionais”.

Em junho a PF indiciou Kallas por irregularidade na Mina Granja Corumi, Serra do Curral, em Belo Horizonte. As mineradoras só podiam retirar minério estocado e recuperar área degradada. A polícia concluiu que identificaram “expressivo potencial econômico de minério existente na Mina Granja Corumi” e exploraram de forma “continuada, coordenada e funcionalmente organizada” desde 2013. Kallas é suspeito de 2014 a 2018. A PF aponta crime ambiental, lavagem, corrupção ativa, tráfico de influência ou vantagem a agente público e indício de uso da Reag — investigada por Master e PCC — para lavar e ocultar beneficiário. A menção é breve no relatório da Operação Parcours e deve ir a outra apuração.

A defesa falou em “plena confiança na demonstração de inocência, pois o indiciamento requenta fatos antigos, já investigados e arquivados pela Justiça”. Kallas: a Parcours “trata-se de uma retomada de fatos já investigados e arquivados pela justiça”. “O empresário desligou-se em definitivo do negócio que é objeto de investigação no qual atuava estritamente como sócio-investidor, em 2017, antes da fundação da Cedro”.

Mesmo sob investigação, integrou o Conselho de Desenvolvimento Econômico Sustentável da Presidência. Em 2025, no Porto de Itaguaí, Lula disse: “Desde que ele foi levado na minha sala, descobri na hora que estava conversando com um empresário sério, com uma visão nacional muito interessante que, antes de tudo, ama o Brasil e acredita no Brasil. Não tenho dúvidas de que será um grande empresário brasileiro na área de mineração”.

O escritório da família de Alexandre de Moraes — Viviane e os filhos Alexandre e Giuliane Barci de Moraes — representa Kallas em inquérito que subiu ao STF no início de fevereiro, depois de suspeita de foro. O caso voltou à Justiça Federal quando a autoridade foi descartada. Antes corria na PF de Minas, sob o TRF-6.

Mendonça e Vorcaro se encontraram ao menos uma vez, segundo mensagens do celular do banqueiro (ICL Notícias, confirmado pelo UOL): 14 de março de 2025, no Iter, articulados por Ciro Rocha Soares, Cezinha de Madureira (PL-SP) e Marcus Vinicius. O ministro disse que o tema foi precatório a pedido do banqueiro. No mesmo mês recebeu advogado de Vorcaro no gabinete do STF sobre o mesmo assunto e afirma guardar “os memoriais escritos recebidos por ocasião do encontro”.

“Em todas as ocasiões, o assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do Supremo Tribunal Federal e que discutia créditos de precatórios de interesse do banco, mas que se encontrava, na exata data da reunião, com pedido de vista de outro ministro. Como já noticiado pela imprensa, o empresário buscou interlocução semelhante com outros integrantes do STF para tratar do mesmo assunto”, diz a nota de 2 de setembro. Mendonça afirma que votou “contrária à posição defendida pelo empresário, em linha com sua posição historicamente defendida em casos semelhantes, conforme se pode verificar nos autos”. O plenário foi unânime contra Vorcaro na STP 976.

Mensagens da PF indicam convite a Vorcaro para evento do Iter em junho de 2025, em Belo Horizonte. O instituto diz que houve, “por intermédio de terceiros”, tentativa de incluí-lo. “Ao tomar conhecimento da tentativa, o CEO do Instituto Iter, Victor Godoy, se posicionou contrariamente à participação de Daniel Vorcaro e barrou o convite. Dessa forma, não houve convite institucional do Instituto Iter a Daniel Vorcaro, tampouco participação dele no evento”.

Com informações do portal UOL.

Compartilhe: