Anderson Pires é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB, publicitário e cozinheiro.
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A hipocrisia de Cármem Lúcia é sedutora
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Foto: FABIO RODRIGUES-POZZEBOM/ AGÊNCIA BRASIL

Tem uma frase que, vez por outra, utilizo: a humildade é a falsa qualidade dos hipócritas. Pode-se dizer que é uma mistura do que Nietzsche conceituava como “falsa virtude” e da genial frase de Nelson Rodrigues: “A modéstia é a vaidade escondida atrás da porta”. Costumo desconfiar dos humildes, daqueles que pedem perdão diante da opinião pública e, com isso, mascaram todas as suas contradições e uma vida marcada por hipocrisias.

Essa introdução serve para conceituar a minha opinião sobre a ministra Cármen Lúcia. Em todos os grandes debates no Supremo, a ministra escolheu a via da humildade perante o público diante da necessidade de apresentar posicionamentos. Como um instrumento de marketing, Cármen Lúcia é a voz de baixo volume, com sotaque tímido e aparência reprimida. Diante de sua evidente fragilidade física, cercada por homens, faz o discurso humilde que serve para esconder sua orientação intelectual conservadora e, pior, para amenizar sua postura pautada em pré-julgamentos e atrelada aos likes artificiais das redes.

Cármen Lúcia é mais uma representante nociva dentro do STF, porque se utiliza de argumentos rasos, como pedidos públicos de desculpas, na intenção de atenuar a gravidade de seus atos, em muitos momentos, ilegais. Façam uma busca sobre suas posições no STF a respeito de temas que foram cruciais para o Brasil e para o ordenamento jurídico. A ministra tem sua conduta guiada pelas redes sociais, pelos grandes veículos de comunicação e por todos os meios sabidamente dominados pelas elites.

Essa mulher nunca pediu desculpas à sociedade pelos grandes males dos quais fez parte. Esteve alinhada ao lavajatismo, corroborou e fortaleceu as práticas ilegais de Moro e Dallagnol. Quando teve a oportunidade de mostrar alguma decência, marcou sua trajetória como uma das que votaram contra o habeas corpus no qual Lula alegava ser ilegal a prisão sem o devido trânsito em julgado. Se existiu um momento que marcou o desrespeito à Constituição brasileira, foi esse. Porque, além de desrespeitar um princípio fundamental, estava claro que o intuito era entregar à extrema direita o controle do país. Cármen Lúcia votou para levar o Brasil ao bolsonarismo.

Foi também com o voto da ministra que Dilma Rousseff teve o golpe praticado no Congresso Nacional referendado no Supremo. Nem nesse momento Cármen Lúcia teve alguma coerência com suas pseudodesculpas, muito menos com suas intervenções em defesa da mulher. Do que adianta fazer falas enfáticas sobre a necessidade da participação feminina nas esferas de poder se sua postura no Supremo é submissa e conivente com aqueles que praticam as piores violências contra as mulheres? Basta ver que ela é cúmplice do golpe contra Dilma e da ascensão de Bolsonaro à Presidência.

Em relação a Lula, Cármen Lúcia só votou pela anulação do processo diante das flagrantes ilegalidades e dos conchavos que foram revelados por um hacker. Algo com o impacto da queda de um avião lotado, impossível de ser abafado pelos veículos de comunicação e que repercutiu intensamente nas redes. Só assim, para atender à opinião pública, a ministra votou a favor da liberdade de Lula, que ela ajudou a prender ilegalmente. Não me recordo de ela ter pedido desculpas à sociedade, nem ao presidente.

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A ministra, mais uma vez, usou o expediente da mulher humilde diante dos brutamontes do Supremo. Fez isso para novamente se alinhar aos conservadores e atender às expectativas dos movimentos da mídia. Teve duplo sucesso: seguiu desrespeitando a ordem jurídica, votando com base na moral, e ainda teve sua postura humilde ovacionada por todos que sempre estiveram com Bolsonaro. Terminou o dia comprometida com as elites, mas pediu desculpas ao povo brasileiro pelo embate agressivo entre seus colegas ministros. Votou em prol da manipulação eleitoral que favorece os fascistas, machistas e criminosos.

A hipocrisia praticada por Cármen Lúcia é muito sedutora. Porque é travestida de boas intenções, algo que a prática mostra ser falso. Cármen Lúcia ocupa o mais privilegiado espaço de poder, tem proteção, está imune às agruras da vida e, mesmo assim, sua conduta é dúbia e perigosa. Age como o matador que avisa à vítima que está muito sentido pelo mal que irá praticar, pede desculpas, mas segue com o extermínio. A ministra poderia ser mais autêntica e assumir sua postura sabidamente guiada pela manipulação midiática. Pode guardar sua falsa consciência crítica para suas orações diante do espelho. Talvez tenham alguma serventia em outro plano.

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