
O Governo Lula tem tido muita dificuldade de converter suas ações em aprovação e voto. Apesar de alguns indicadores positivos, que, em tese, deveriam refletir satisfação majoritária, o que se verifica, desde 2023, é um cenário que oscila sempre perto do limiar entre aprovação e desaprovação.
O Brasil tem tido crescimento econômico acima da média mundial, a extrema pobreza reduziu, o país saiu do mapa da fome, o desemprego está nos níveis mais baixos da história e a renda média está acima dos R$ 3.700,00. Aparentemente, condições para uma trajetória tranquila, sem muitos percalços e com popularidade elevada.
A questão é que números médios podem esconder distorções extremas. É exatamente esse o ponto que levou Lula, nas vésperas das eleições, a ter intenção de voto praticamente igual à de seus adversários da extrema direita, que não têm absolutamente nada para mostrar que os qualifique como melhor opção. Pautam suas campanhas por temas de ordem moral, impregnados de conservadorismo, e na insatisfação dos segmentos médios, que estão espremidos nas distorções dos indicadores apresentados pelo Governo Lula.
O primeiro dado que reflete uma profunda distorção é o aumento da desigualdade. Um país que cresce seu PIB, mas acelera a desigualdade, irá sacrificar parcelas significativas da sociedade, geralmente os segmentos médios. Não são ricos, mas também não são pobres o suficiente para serem atendidos por políticas públicas que amenizem a tendência de empobrecimento e endividamento. Vivem numa espécie de purgatório socioeconômico.
Outro dado que serve bem para exemplificar que números não são tão exatos quanto alguns pensam é a renda média. O significado de “média” já explica: reflete a divisão igual por todos os economicamente ativos. Isso esconde que existe uma distância abissal entre os que ganham o mínimo e os que ganham milhões em um mês. Mais uma vez, a desigualdade se reflete.
Assim como nesses exemplos, há muitos números que precisam de uma análise mais profunda do que a mera divulgação publicitária. Por mais que pareçam positivos, não surtem efeito entre os segmentos médios que citamos, que vivem uma realidade diferente daquela que o ufanismo tenta mostrar. A questão é que esses segmentos médios são os mesmos que podem definir para onde o resultado eleitoral penderá.
Essa parcela vota em busca de perspectivas e não faz parte de nenhuma torcida radical. Entende a vida pela leitura do extrato bancário e pela possibilidade de consumir para além da subsistência. Foi o segmento que mais buscou o empreendedorismo como alternativa e virou pessoa jurídica, mesmo exercendo funções de um trabalhador celetista. Contribuiu muito para mais um indicador que parece positivo, como a queda do desemprego, pois deixou de fazer parte das estatísticas de quem procura emprego.
Além dessas questões de ordem econômica e social, paira sobre o Governo Lula uma questão de cunho político. A necessidade de coalizões e alianças no Congresso passa, para os que fazem uma leitura mais simplista, a impressão de que não existe uma diferença significativa entre esquerda e direita, progressistas e conservadores. Isso favorece a extrema direita, que faz sempre o discurso de que a culpa é de Lula e que só ela é alternativa. Maniqueísmo puro, com fortes doses de demagogia e hipocrisia, mas que funciona num cenário com muitos insatisfeitos, principalmente nos segmentos médios.
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Uma coisa também é certa: o Congresso e seus principais líderes, os presidentes da Câmara e do Senado, são identificados como o que de pior temos na política, com avaliação negativa acima dos 80%. Tanto que, quando promoveram derrotas ao governo, a popularidade de Lula teve oscilação positiva. A hashtag #congressoinimigodopovo facilmente foi ao topo nesses momentos.
Novamente, o governo e o presidente Lula vivem um momento de oscilação positiva nas pesquisas, coincidentemente — ou exatamente — por haver um conjunto de fatos que aponta para sanar essas duas vertentes de desgaste: a implantação de ações que atendam aos segmentos médios e os embates no Congresso que o diferenciam.
Se for feito um comparativo com outros momentos de oscilação positiva, sempre teremos esse conjunto de fatores. A divulgação de números macroeconômicos, como os que já citamos, nunca surtiu o mesmo efeito. Os números do PIB, da renda média, dos investimentos no agronegócio, da saída do mapa da fome ou da redução do desemprego não atenderam às necessidades objetivas dos segmentos médios. Logo, os impactos ficaram restritos aos muito pobres e aos muito ricos, exatamente os que já têm definição de voto.
Nesse curto período entre abril e maio de 2026, alguns fatos podem ser destacados, como: as derrotas que Lula sofreu no Congresso; a redução, mesmo que tímida, da taxa de juros; o programa Desenrola para os endividados, inclusive pequenas empresas; o início do acordo comercial com a União Europeia; e a reunião com o presidente americano, com perspectivas de avanços diplomáticos e comerciais. Todos esses pontos agem de forma positiva sobre os segmentos médios.
O que impressiona é por que o governo precisou errar tanto para perceber o que parecia óbvio. Nessa linha, vejo um vasto campo de atuação para consolidar a percepção positiva nos segmentos médios. Se o governo pode subsidiar o agronegócio com o Plano Safra, via Banco do Brasil, por que não usa os bancos públicos para oferecer crédito aos demais setores econômicos, com juros mais baixos do que os das linhas de crédito atualmente oferecidas? Com a inflação abaixo de 5% ao ano, financiar o setor produtivo com taxas inferiores aos 14,5% da Selic é viável. Hoje, o PRONAMPE, uma das linhas oferecidas, está na faixa dos 23% ao ano. Há propaganda de empréstimo espalhada pelas cidades cobrando menos.
Outra questão urgente e justa é a situação dos Microempreendedores Individuais, os MEIs, que têm o teto de faturamento sem reajuste desde 2018. Só a inflação acumulada no período está em quase 50%. Isso significa que esse setor, que ultrapassa treze milhões de pessoas — famílias, na verdade —, está pagando proporcionalmente mais impostos do que deveria. São trabalhadores que viraram empresas individuais e que estão espremidos pela inflação, pelas taxas de juros e pelo fantasma da informalidade. Parece simples — e, na verdade, é —, mas falta uma percepção menos conservadora do governo de que não será apostando apenas em megaempresas que haverá mudanças significativas no Brasil, capazes de refletir na aprovação de Lula e na intenção de voto.
Em suma, se no artigo anterior escrevi sobre os motivos que poderiam levar Lula a ser derrotado nas próximas eleições, agora ressalto ações que acredito serem acertadas para promover um cenário de ascensão. A leitura da sociedade brasileira não pode ser a mesma do início dos anos 2000. Depois de mais de duas décadas, temos extratos sociais diferentes, num mundo que acelerou absurdamente a concentração de renda.
O Brasil não pode caminhar para virar um abismo de desigualdade, onde teremos apenas uma massa de pobres no fundo, sem perspectivas de mobilidade social positiva, e um número ínfimo de muito ricos assistindo, de cima, à desgraça alheia e usufruindo das benesses do país.