Anderson Pires é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB, publicitário e cozinheiro.
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Lula pode perder a eleição
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Foto: Manoel Porto – CSBH/FPA

A política é capaz de ressuscitar e enterrar personalidades. Em alguns casos, isso pode acontecer diversas vezes ao longo da vida. Talvez Lula seja o personagem político que mais vezes “morreu” e “ressuscitou”. Entre altos e baixos, por quase cinquenta anos, é uma figura determinante na política e no jogo do poder. Mesmo antes da fundação do PT, em plena ditadura militar, Lula já era capaz de balançar o Brasil como sindicalista.

Não existe no Brasil um político que tenha uma trajetória mais marcante. Nenhum outro presidente teve origem popular. Todos os demais que chegaram à presidência são oriundos de classes privilegiadas, mesmo aqueles que tiveram uma condução mais progressista ou que promoveram avanços em prol da classe trabalhadora.

Digo mais: não existe, na história do Brasil, outro expoente vinculado à esquerda que tenha origem parecida com a de Lula. Podem puxar pela memória: mesmo entre líderes de organizações políticas e partidárias, nenhum deles veio do extrato mais pobre da sociedade brasileira. Logo, Lula é um caso único.

Por esses motivos, Lula se tornou maior que as organizações de esquerda, como o próprio PT. Isso lhe conferiu um caráter mitológico e messiânico. Por outro lado, virou a personificação do inimigo a ser combatido por todos que não se sentem contemplados pelo que representa ou pelos resultados de seus governos.

Os cinquenta anos de protagonismo de Lula alimentaram também a rejeição. Por mais moderado que Lula seja — e ele é muito moderado —, o adversário sempre foi ele. Essa personificação gerou posicionamentos simplistas, contra ou a favor, sem ponderações que possam ir além das percepções individuais e dos preconceitos.

Sim, os preconceitos sempre foram um grande obstáculo para as eleições de Lula. A frase atribuída a Maquiavel, “Os preconceitos têm raízes mais profundas que os princípios”, explica bem como sempre será muito difícil para Lula ser eleito. Num país em que nenhum outro político de origem pobre chegou tão longe, que tem o determinismo religioso e de classe enraizados, nem mesmo quando Lula teve seu governo amplamente aprovado conseguiu ser reeleito em primeiro turno.

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Parece uma insanidade — e é. Romper preconceitos é muito mais difícil do que quebrar princípios. Veja o exemplo dos grandes empresários brasileiros: é inquestionável que foi durante os governos Lula que mais lucraram em toda a história. Se o princípio do capitalista é a obtenção de lucros, por qual motivo continuam, majoritariamente, votando contra Lula? A resposta está exatamente no preconceito. Isso vale para os empresários, mas também para quase todos os segmentos da sociedade.

Para alguns, pode parecer estranho que políticos com trajetória pífia, que nunca produziram algo relevante, envolvidos com criminosos, contrários aos direitos humanos e entreguistas das riquezas do país disputem as eleições para presidente com chances de vitória contra Lula. Mas, quando lembramos do peso de carregar, por décadas, a rejeição e os preconceitos, isso deixa de ser estranho.

Não bastassem os preconceitos dos outros, Lula também carrega os seus. Parte deles se expressa na política de conciliação de classes que tentou promover em seus governos. A crença de que seria possível diminuir a extrema pobreza em paralelo à geração de uma classe de super-ricos, capazes de impulsionar o país, tem muito de suas raízes. Mas essa aposta nos extremos gerou uma parcela média da sociedade brasileira espremida. Não são tão pobres para serem atingidos pelas políticas de distribuição de renda, nem serão contemplados pelos incentivos, isenções, juros e lucros de que desfrutam os grandes capitalistas.

A ilusão da formação de uma nova classe média brasileira vem ruindo diante da constatação de que a conciliação de classes proposta serviu para amparar os muito pobres, mas também para acelerar absurdamente a concentração de riquezas. O resultado é que, a cada dia, mais pessoas se tornam pobres, sem que o colchão das políticas sociais as alcance, já que, para isso, seriam necessárias medidas radicais que promovessem a retirada de parcela significativa dos ganhos dos muito ricos. Apesar de serem numericamente poucos, controlam o poder econômico e político no Brasil.

O reflexo no cenário político pode ser visto nas pesquisas. Provavelmente, Lula continuará resistente a radicalismos. Não acredito que irá adotar discursos que atinjam de forma explícita os verdadeiros agentes da desigualdade no Brasil. Um exemplo atual é o debate sobre o fim da escala 6×1. As resistências são muitas e, ainda assim, não se dão nomes aos bois que diferenciem quem tem poder para barrar ou deformar a proposta. Nessa hora, o microempresário e o megaempresário são colocados na mesma balança, como se fossem da mesma classe. O dono da bodega e o da Ambev não podem achar que estão na mesma trincheira, muito menos serem tratados pelo governo da mesma forma.

São em situações como essa que Lula peca e suas raízes falam mais alto. Nesse momento, faltam os princípios que deveriam nortear um homem de esquerda, mesmo que moderado. Os limites precisam ser estabelecidos se quiser realmente se diferenciar do que propõe a direita, que se apresenta como se estivesse agindo com responsabilidade, quando, na verdade, busca manter privilégios e a exploração do trabalhador.

Tenho muito receio de que Lula possa perder a eleição pelos erros que insiste em cometer. Talvez siga acreditando que terá aquele um por cento a mais que os adversários para a vitória eleitoral. Acho isso muito arriscado, algo que beira a soberba. Lembro que, nos momentos extremos que o Brasil viveu em sua história recente, quem reagiu aos absurdos da direita e da extrema-direita foram aqueles que, por consciência ou sentimento de classe, se rebelaram.

E se Lula perder? Isso pode acontecer, com ou sem radicalismo. Entretanto, não adiantará atribuir a derrota à crueldade da rejeição, aos preconceitos ou à desigualdade na disputa. Já sabíamos disso — num quinto governo, não há mais com o que se iludir.

Torço para que ainda haja tempo de redirecionar a rota politicamente, no discurso e no que se pretende fazer para romper com esse ciclo de desigualdade perpétua no Brasil. Será muito duro se, ao final desse processo, constatarmos que, por insistir nas mesmas receitas, se perdeu o pequeno saldo que ainda tínhamos para ganhar uma eleição com Lula.

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