
A primeira vez que votei para presidente, em 1989, tinha acabado de fazer 16 anos. Naquela época, já votei na esquerda. Acredito que carregava também um certo romantismo em torno da história de diversos líderes que militaram em partidos comunistas, como Prestes, Marighella e Che. Sendo assim, meu primeiro voto foi para o PCB, que teve Roberto Freire como candidato a presidente.
O PCB remetia a nomes com histórias marcantes, como Graciliano Ramos, Jorge Amado, João Amazonas, Gregório Bezerra e outros ícones que contribuíram para o pensamento de esquerda no Brasil e, principalmente, para a defesa da classe trabalhadora. Votar no PCB, apesar da quase certeza da derrota, servia para reafirmar crenças e compromisso ideológico. Apesar de Lula ser um autêntico integrante da classe trabalhadora, só votei nele no segundo turno.
De lá para cá, filiei-me ao PT em 1994, e foram sucessivos votos no partido. Lula continuou sendo a principal referência e, após três derrotas, foi eleito em 2002. Em todas as eleições, desde a reabertura democrática, o Partido dos Trabalhadores sempre esteve na disputa e chegou ao segundo turno. Foram cinco vitórias. Nenhuma delas fácil. Sempre no segundo turno.
É inegável o papel do PT na história do Brasil. Talvez ainda estivéssemos convivendo com absurdos como a existência de legiões de famélicos perambulando sem ter o que comer. Em Vidas Secas, Graciliano relata bem essa situação, que era comum no Nordeste brasileiro. Lembro-me de que, quando criança, íamos para a cidade dos meus avós, Olho d’Água das Flores, no sertão de Alagoas, e cruzávamos, na estrada, com filas enormes de trabalhadores das frentes de combate à seca, maltrapilhos, que ficaram conhecidos como o “povo da maguinu”, uma corruptela da expressão “magro e nu”.
Esse mérito ninguém tira do PT. Foi o partido que primeiro atuou de forma incisiva para acabar com a fome e garantir direitos mínimos de subsistência com dignidade. Não foi só nisso que produziu avanços. Mas, se tivesse que elencar o maior de todos, seria esse. Até por saber exatamente a dimensão do que era a fome e da completa falta de dignidade que o povo pobre do Nordeste vivia. Existia fome em outras regiões, mas nada se comparava ao sertão nordestino. Só quem viveu ou presenciou tem essa dimensão.
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Mas isso não é suficiente para qualificar um governo como de esquerda. O combate à fome não pode estar dissociado do enfrentamento de classe, da redução da desigualdade e do combate à exploração do homem pelo homem. Para o capitalismo, permitir que alguém coma é apenas uma concessão, já que, para ser explorada, a pessoa precisa estar viva.
Pode parecer contraditório, mas é exatamente assim que o sistema funciona. Quebrar essa lógica, segundo a qual gente serve para ser explorada, é o que verdadeiramente qualifica um governo de esquerda. Promover programas que proporcionem necessidades básicas, como matar a fome, é extremamente importante. Mas não se pode dar com uma mão e tirar com a outra. Vamos usar o exemplo do Bolsa Família, um programa que tem aporte de recursos de cerca de R$ 160 bilhões ao ano e que é vital para a erradicação da fome. Entretanto, o mesmo governo destina mais de R$ 500 bilhões para o Plano Safra financiar a agricultura empresarial, majoritariamente, vinculada à extrema direita.
É essa ordem de prioridades que diz para que lado se governa. Os ricos seguem sendo privilegiados, sem sofrerem abalos em seu propósito de exploração. Se, por um lado, temos programas como o Bolsa Família, que padronizam o limite de pobreza, todos os demais direitos trabalhistas, previdenciários e até fiscais vêm sendo reduzidos. Para ser ainda mais desumano, as pessoas, perante o Estado e o sistema, paulatinamente vêm deixando de existir enquanto indivíduos e passam a ser tratadas como empresas. A pejotização é isso. Dessa forma, as demandas pessoais, logo humanas, vão sendo reduzidas como por mágica. Um bom exemplo são as taxas de ocupação, que criam uma falsa realidade de que vivemos numa economia de pleno emprego.
É semelhante a negar a descriminalização do consumo de drogas. Se o consumo não é reconhecido pelo Estado, não existe problema a resolver. A exceção seria se os viciados ou o consumo desestabilizassem o sistema de alguma forma, a ponto de deslocar parte significativa do capital. Assim, o Estado atuaria como ferramenta reguladora dos interesses dos capitalistas, como sempre foi e continua sendo, até mesmo no governo Lula.
Essa é a questão: quando teremos um governo de esquerda e candidatos dispostos a enfrentar o sistema? Quando iremos além de medidas reguladoras do capitalismo? O colapso do capitalismo está escancarado. Por mais absurdo que pareça, a exploração só aumenta. Nunca se teve tanta concentração de riqueza. Tirando os vaidosos como Elon Musk, o capitalismo nem cara tem mais. Uber, Airbnb, Booking, iFood e uma infinidade de empresas cuja atividade-fim é explorar, sem produzir absolutamente nada.
A barbárie já se instalou, mas muitos não querem ver. A especulação financeira, que é eticamente aceita, agora tem variáveis antes consideradas criminosas, como o mercado de apostas e a agiotagem legalizada promovida por bancos e fintechs. É sobre isso que gostaria de ouvir propostas, ter um candidato ou partido que se propusesse a fazer esse embate, a tratar a exploração de forma explícita, sem tangentes que façam parecer que garantir um prato de comida é um grande feito.
Num mundo desumano, não é pouco ter uma visão mais sensível sobre alguns temas. Como disse neste texto, era ainda pior no tempo da “maguinu”. Temos políticos que se candidatam e defendem relações escravocratas e feudais, nas quais cada um que se vire e garanta sua subsistência. Infelizmente, não temos opções de esquerda para votar. Não me venham dizer que alguns folclóricos são opção. Um projeto de esquerda não se faz com bravatas. Sendo assim, ainda será Lula a opção possível. Não é de esquerda, mas jamais negaria direitos básicos.