Anderson Pires é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB, publicitário e cozinheiro.
Anderson Pires é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB, publicitário e cozinheiro.
Racismo matriz
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Capa do livro Quem vai chegar primeiro? de Felipe Gesteira, que trata da liberdade religiosa

O Brasil é um país racista. Não tem o que se questionar, está enraizado, é algo estrutural. O estado, a sociedade e até o mercado são racistas. Mais grave ainda quando passamos pra o campo religioso. As manifestações contrárias as religiões são absurdas, com casos de violência extrema e destruição de locais de culto. Até o ensino das religiões tem o crivo do racismo. Tentam proibir e marginalizar.

Mas recentemente, após muita pressão do movimento negro e das pessoas que combatem o racismo, alguns avanços foram conseguidos. Temos uma política de cotas que contempla os negros e pardos, por serem notadamente o segmento da sociedade que acumula os mais altos índices de pobreza e desigualdade. Porém, no campo religioso não considero que existiram avanços na aceitação e no direito de culto as religiões que os negros fundaram.

Por mais que a gente escute pessoas de diferentes áreas fazerem o discurso de respeito a todas as crenças e religiões, a realidade não condiz com as falas. Repetem que o Brasil é laico e que a intolerância religiosa deve ser punida severamente, entretanto, usam de subterfúgios retóricos, que tornam mais fácil para quem não respeita de forma plena. Também é preocupante que os negros absorvam essa conduta e se expressem da mesma forma que os racistas ou pseudo não racistas sobres as religiões que praticam.

Essa conversa está confusa, mas vou explicar. Ontem assisti ao Globo Repórter, que fez uma homenagem ao ator, escritor e diretor Lázaro Ramos. Contou sua história de forma muito bonita. Foram até a pequena ilha em que nasceu e toda sua família morava. A repórter perguntou a Lázaro se as pessoas que moravam lá eram católicas. Ele respondeu dizendo que algumas cultuavam religiões de matriz africana. Aquela expressão saindo da boca de Lázaro, me soou como uma forma reprimida de identificar os cultos praticados.

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Naquela hora, percebi que virou praxe usar a identificação religiões de matriz africana, como uma forma mais confortável e aceita de expressar. Por que não se diz diretamente umbanda e candomblé? Essas são as religiões, além de algumas outras denominações de menor abrangência. Se até um homem negro, de muito sucesso, um cara genial, que conseguiu romper as barreiras da pobreza e do racismo, se expressa dessa forma, é um sintoma de que a rejeição e o racismo religioso são absurdamente maiores que o próprio racismo.

Ninguém escuta um católico ou evangélico se referir a sua religião como de matriz judaica-cristã. Porque são socialmente aceitas. A utilização de termos, muitas vezes, servem para mascarar preconceitos e tornar mais palatável o que se quer na verdade apagar. Aquilo que se defende, precisa ser dito com clareza, sem termos que pareçam eufemismos.

A língua e a forma como identificamos as coisas são elementos muito fortes de afirmação e resistência. Como nos referimos diz como aceitamos. A questão do racismo religioso em relação aos negros precisa ser combatida a partir da forma como suas religiões são identificadas. O mesmo vale em menor dimensão para outras crenças, como as esotéricas e, também, para os que não acreditam em deuses. Para mim, intitular de forma genérica como religião de matriz africana é uma forma de atenuar a manifestação de racismo. Não se pode ter vergonha ou receio dos nomes. Religião é umbanda e candomblé.

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