Rodrigo Caldas é advogado, mestre em Direitos Humanos e escritor. E-mail: autognomes[a]gmail.com
Rodrigo Caldas é advogado, mestre em Direitos Humanos e escritor. E-mail: autognomes[a]gmail.com
O ano da morte de Ricardo Reis
Compartilhe:

Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo

Ricardo Reis

Fernando Pessoa
Fernando Pessoa (Foto: S.A. e Maria José de Lencastre/Wikimedia Commons)

1- Ricardo Reis: heterônimo de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa (1888-1935) o poeta do “ser” por excelência da língua portuguesa. O poeta que, em versos livres, desvelou a verdade ontológica de que o homem é um ser para a morte. O Ser e o Tempo heideggeriano ganham um tom melancólico e nostálgico, de fado português, na poética pessoana. Como no poema Autopsicografia, o poeta Fernando Pessoa é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor. Fernando finge ser múltiplos e na dor dramática multiplicada pela poesia, cria heterônimos. Nomes diferentes para nomear diferentes facetas de seu ser complexo e multifacetado. Um ser embriagado pela poética épica de Luís Vaz de Camões (1524-1580) que tenta emular em Mensagem, seu poema longo, nacionalista e místico. Um diálogo poético com Camões que sombreia de nacionalismo místico o existencialista Fernando Pessoa. Impregnado de literatura e língua inglesa adquiridas na África do Sul, onde viveu na adolescência, antes de voltar à pátria lusitana e encontrar sua poesia em língua portuguesa. Língua da epopeia dos Lusíadas, do teatro de Gil Vicente (1465-1536) ao romance naturalista de Eça de Queirós (1845-1900). Em Fernando Pessoa dialogam duas ricas tradições literárias: a portuguesa e a inglesa. O lirismo poético do latim português e o pragmatismo dramático inglês. O misticismo camoniano e a metafísica shakespeariana encontram-se em Fernando Pessoa.

Se a ontologia do ser pessoano é múltipla e complexa, isso se desvela em seus heterônimos cuidadosamente criados, inventados ao ponto de virarem realidades literárias. Os mais famosos têm datas de nascimento, vidas, profissões, personalidades e mortes próprias. São personas literárias autônomas de Pessoa. Álvaro de Campos estudou engenharia em Glasgow na Escócia, realizou viagens pelo Oriente, trabalhou em Londres e depois voltou para Portugal, onde escreveu o famoso poema Tabacaria. Álvaro de Campos é um poeta futurista, efusivo, entusiasta de Walt Whitman (1819-1892), exalta o mundo moderno e industrializado. Após sucessivas desilusões e crises existenciais, Álvaro de Campos torna-se niilista e intimista. De todos os heterônimos é o mais próximo do ortônimo Fernando Pessoa. Alberto Caeiro é o poeta, heterônimo, da simplicidade bucólica, o pastor que vive no campo e estudou apenas até a quarta série. Avesso à filosofia, vive com simplicidade. A única realidade para Alberto Caeiro é a realidade das sensações, sua poesia é sinestésica, bucólica e pastoril. De linguagem simples e direta, lembrando o poeta Cesário Verde. A grande obra poética de Alberto Caeiro é O Guardador de Rebanhos, na cronologia inventada por Fernando Pessoa, Caeiro morre aos vinte e seis anos de tuberculose em Lisboa, tendo vivido boa parte de sua curta existência no Ribatejo.

Ricardo Reis é médico, nascido no Porto em 1887, conservador e monarquista, decide migrar para o Brasil onde passa a viver no Rio de Janeiro. Dr. Reis é clássico e estoico, sua poesia é neoclássica e rica em alusões à mitologia greco-romana. Latinista, sofre influência do poeta romano Horácio. Ricardo Reis é adepto do carpe diem (curta o momento), vivendo o agora sem preocupar-se com o futuro. Como um estoico, busca dominar suas emoções pela razão. Ricardo Reis é solitário, erudito e clássico. De todos os heterônimos de Fernando Pessoa, é o único que não teve sua morte datada. Assim, quando Fernando Pessoa falece em 1935, Ricardo Reis, seu personagem heterônimo, ainda está vivo e esse gancho criativo é aproveitado pelo engenhoso José Saramago (1922-2010) que usa desse artifício para criar o monumental “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. A mais inventiva homenagem ao poeta Fernando Pessoa que contrasta criador e criatura, vida e morte, liberdade e opressão em uma Portugal que, naquele momento histórico, vivia sob a ditadura de Salazar.

2- O Estado Novo português e a ascensão do fascismo europeu

O pano de fundo histórico de O Ano da Morte de Ricardo Reis, é o do Estado Novo português (1933-1974). O romance de José Saramago retrata, pela lente do poeta Ricardo Reis, a ditadura fascista de Salazar. O ambiente de pobreza espiritual e miséria material em que estava assolado o povo português. O Estado Novo em Portugal emergiu em um período conturbado, após a Primeira República portuguesa (1910-1926), onde houve mais de 40 governos em um intervalo de 16 anos. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) gerou um grande endividamento, deixando o Estado português em uma grave crise fiscal. A instabilidade política e econômica refletiu-se em conflitos sociais. Esse ambiente caótico e de crise abriu espaço para a ditadura militar em Portugal. O regime militar (1926-1933) emergiu em um contexto de crise do capitalismo liberal e democrático internacional. A lógica do capital de acumulação e expansão, através da precarização crescente do trabalho, com sua perda progressiva de poder de consumo, conduz a uma crise cíclica de superprodução. O mercado fica inundado de mercadorias mas os trabalhadores não têm dinheiro para comprar. Assim, as fábricas deixam de produzir, há demissões em massa, a cadeia produtiva desmorona, pois as mercadorias deixam de circular. Assim, o Crash de 1929 foi uma dessas crises cíclicas do processo de acumulação de capital que pôs por terra toda a cadeia produtiva mundial, refletindo-se, no plano político e cultural, na ascensão do fascismo como uma resposta antiliberal e anti-socialista à crise instaurada. Não por acaso, nesse período pulularam regimes fascistas no continente europeu. O fascismo na Itália é apenas o protótipo de uma resposta não liberal e anti-democrática à crise estrutural do capital e que busca ser um rival do socialismo como alternativa à crise. O nazismo na Alemanha segue a mesma lógica, apenas em cada país o fascismo ganha uma formatação cultural específica. Se na Itália a alusão era à Roma Antiga, na Alemanha o fascismo ganha um caráter de mitologia nórdica e eugenia. O racismo germânico e a nostalgia italiana foram reações atávicas à crise do capitalismo em ambos os países. Em Portugal, o fascismo ganhou uma formatação que remonta também à sua história. O Estado Novo, o fascismo português, era católico, conservador, nacionalista e corporativista. O fascismo, enquanto fenômeno político, tem raízes psicanalíticas. É a sombra junguiana coletivizada que alimenta o fascismo. O catolicismo, com seu traço de autoritarismo (pater familias) e hierarquização típicos de um poder que se pretende onisciente e onipresente, junta-se ao conservadorismo para dar um contorno corporativista à sociedade portuguesa. Não por acaso, o fascismo busca conciliar capital e trabalho, neutralizando artificialmente a luta de classes, através de um líder forte, providencial e dotado de poder carismático. Na Itália, o Duce; na Alemanha, o Führer. Ambos na linha do Poder Pastoral, o poder de reger o rebanho passivo e obediente. Em Portugal, António de Oliveira Salazar (1889-1970) personificou o grande líder regente. Salazar, diferentemente dos demais, era um ilustrado, um professor de economia de Coimbra. O homem que pôs ordem nas finanças públicas do Estado português, em pouco tempo, também passou a censurar e controlar a informação que circulava pela imprensa. Criou uma polícia política que passou a vigiar, intimidar, perseguir, torturar e matar todo aquele que fosse considerado suspeito de divergir do regime. No romance de José Saramago, Ricardo Reis é ouvido pela polícia política, afinal, o que um médico que morava no Brasil estava fazendo em Portugal 16 anos depois? Ricardo Reis voltara após saber da morte de Fernando Pessoa, uma metáfora para a morte da poesia portuguesa. Em seu encalço estava a polícia política de Salazar. O fascismo de Salazar é a prova viva da criatividade do fascismo, toda vez que o capitalismo vive suas crises cíclicas. Pois se na Itália, Alemanha e Espanha, adquiriu-se um tom nostálgico, eugenista ou militarista, em Portugal teve um caráter católico e catedrático, através de um ilustre professor de Coimbra, alusão aos antigos teólogos escolásticos que legitimavam o colonialismo e a exploração de outros povos.

3- Lisboa e o Hotel Bragança

No romance de Saramago, Lisboa é uma cidade cinza, onde chove a maior parte do tempo. Uma cidade nebulosa, chuvosa, onde a população circula caótica por becos e ruas apertadas. Uma cidade asfixiada pela ditadura de Salazar. A aparente normalidade das pessoas, da vida em Lisboa, sustenta-se em um equilíbrio tênue entre o medo e a cautela. A polícia política do Estado Novo é a longa manus que pode, a qualquer momento, sumir com alguém que pareça suspeito ou ameace “a paz e a ordem” do regime de Salazar. O epicentro da narrativa de Saramago é o Hotel Bragança, onde Ricardo Reis passa a residir provisoriamente. O Hotel Bragança é a metáfora literária de uma Lisboa classista, dividida entre ricos e pobres. A situação de transitoriedade de Ricardo Reis, como hóspede em um hotel, é também a metáfora da sua transitoriedade existencial, pois O Ano da Morte de Ricardo Reis narra os últimos oito meses de Ricardo Reis, enquanto criatura literária de Fernando Pessoa, antes de acompanhar derradeiramente seu criador, falecido no final de 1935. Saramago escreveu um romance sobre a criação poética de Fernando Pessoa para desvelar as verdades existenciais e políticas ocultadas pela ditadura do Estado Novo. A mentira literária (ficção e licença poética) desnudando a verdade política. O Hotel Bragança do romance de Saramago, em alguma medida, lembra o Hotel Abismo de György Lukács (1885-1971), um espaço privilegiado de entretenimento e prazer para a elite enquanto o restante do mundo desaba.

Fernando Pessoa nasceu no Largo de São Carlos, no Chiado, sua última morada foi na rua Coelho da Rocha, no bairro de Campo de Ourique. Entretanto, a maior parte dos lugares onde viveu sua vida adulta em Lisboa, localizam-se no centro histórico, em um espaço de pouco mais de 4 km, transitando entre cafés, livrarias e escritórios. Pessoa era um homem introspectivo e rotineiro, deambulando conservadoramente pelos mesmos lugares. A multiplicidade criativa de seus heterônimos contrastava com a unicidade de sua permanência física pelos mesmos espaços de Lisboa. O café A Brasileira, famoso café no Chiado, onde realizaram-se suas tertúlias literárias ou o café Martinho da Arcada, café histórico na Praça do Comércio, foram lugares assiduamente frequentados por Fernando Pessoa. A Lisboa de Fernando Pessoa é retratada com cuidado e mestria por Saramago em O Ano da Morte de Ricardo Reis. Lisboa é o espaço literário- mais que urbanístico- do drama existencial de Ricardo Reis, personagem que ganha vida e protagonismo em um mundo de desilusões e instabilidades políticas.

4- Ricardo Reis dividido entre dois amores

O poeta Ricardo Reis é um homem de 48 anos, conservador, erudito e solitário. Ricardo Reis acalenta sua solidão como matéria-prima de sua poesia. A literatura é a arte dos solitários, personificada em Ricardo Reis. No romance O Ano da Morte de Ricardo Reis, o pano de fundo histórico do Estado Novo articula-se com o drama sentimental de Ricardo Reis que se envolve com duas mulheres. O poeta das Odes, o esteta clássico que erige poemas para uma Lídia idealizada, no romance de José Saramago envolve-se com uma Lídia concreta, material. Se na poesia Lídia é uma figura pagã, vinculada à natureza, sem as complicações da vida moderna, a musa do carpe diem, dos prazeres momentâneos em face da consciência da mortalidade. A Lídia que se envolve com Ricardo Reis, em sua volta a Lisboa, é uma camareira de hotel, uma mulher simples do povo, metáfora da mulher portuguesa. Se a Lídia das Odes é uma ninfa grega, a Lídia romanceada por Saramago é de uma beleza rude, volumosa e voluptuosa. Lídia é a beleza natural da mulher portuguesa das classes populares. O poeta conservador e clássico envolve-se com a camareira simples de curvas generosas. A semiótica das paixões que costura o texto de Saramago, une dois mundos contrapostos. O universo do conservador e monarquista Ricardo Reis ao mundo simplório e cruento de Lídia. O amor clandestino entre o senhor e a serva. Lídia é camareira no Hotel Bragança, vive da força de seu corpo, o mesmo corpo que seduz e causa concupiscência ao poeta, o esteta da palavra e das formas. Lídia é uma mulher que pertence à classe subalterna, é uma serviçal e isso constrange Ricardo Reis que nunca assume seu envolvimento com ela, muito menos em público. Aquele amor clandestino também revela os preconceitos do poeta conservador e amante das musas. Lídia é filha de pai incógnito, nunca soube quem era seu pai. Ela termina por engravidar de Ricardo Reis que desaparecerá em breve. O destino trágico de Lídia se repete com o filho que terá de Ricardo Reis. O outro amor do poeta clássico é o que sente por Marcenda. Ela é o oposto de Lídia. É uma mulher da aristocracia portuguesa, de gosto refinado, culta e de uma beleza pálida e discreta. O nome Marcenda remete ao latim marcere, murchar. Assim, Marcenda é uma mulher murcha, incapaz de um envolvimento efusivo, intenso. É uma mulher aristocrática, culta mas que definha, literalmente murcha existencialmente. Marcenda tem um braço que não se move, o braço esquerdo, metáfora da ausência de uma força de esquerda que se oponha e combata a hegemonia da direita salazarista. Marcenda é a metáfora da desilusão da juventude portuguesa que é tomada pelo niilismo desencantado que cobre como uma sombra a sociedade portuguesa da época, a sombra do fascismo. Se com Lídia, Ricardo Reis desfruta dos prazeres carnais; com Marcenda, o amor é platônico, idealiszado. No íntimo, Marcenda vê em Ricardo Reis um homem mais velho com quem não quer se envolver a sério. Já Ricardo Reis não vacila em pedir Marcenda em casamento, recebendo o silêncio como resposta. Se o poeta é um fingidor, Ricardo Reis não finge seus preconceitos de classe. A contradição no coração do poeta é o combustível de sua poesia neoclássica, repleta de mitos clássicos e ninfas gregas. Entre a voluptuosidade popular de Lídia e o platonismo aristocrático de Marcenda, Ricardo Reis é como um pássaro de asas partidas. O poeta das Odes clássicas é incapaz de amar verdadeiramente. Os labirintos emocionais nos quais se perde, entre Lídia e Marcenda, são as vias misteriosas que alimentam a sua poesia clássica.

5- Os diálogos existenciais

Os diálogos entre Ricardo Reis e seu criador, o poeta Fernando Pessoa, dão o tom irônico e jocoso à narrativa de O Ano da Morte de Ricardo Reis. Fernando Pessoa falece no final de 1935, Ricardo Reis, médico monarquista domiciliado no Brasil, ao saber da morte do poeta, retorna a Portugal. É a criatura órfã em busca do criador falecido. Segundo o espírito de Fernando Pessoa, entre a morte e o desaparecimento definitivo de uma pessoa, passam-se nove meses, o tempo de gestação de um nascituro. Assim, nesse intervalo de tempo, morre-se progressivamente na lembrança dos que ficam. É nesse intervalo de tempo que o espírito de Pessoa dialoga com o médico Ricardo Reis. Diálogos existenciais destilados com doses profundas de ironia. O Fernando Pessoa de Saramago é um Sócrates andarilho movido por um humor ácido ao estilo de outro filósofo: Schopenhauer. As tiradas vão desde a perda progressiva da capacidade de ler, após a morte torna-se uma faculdade desnecessária no além túmulo. A entrada e saída dos lugares incógnito pelos demais transeuntes, até as observações jocosas sobre a vida sentimental e sexual de Ricardo Reis. Em certa passagem, Fernando Pessoa observa para Ricardo Reis, “estou decepcionado com você, esperava mais, logo você, o poeta das Odes, amante das ninfetas, envolver-se com uma camareira de hotel?!” Não é preconceito de classe, por parte de Fernando Pessoa, é ironia pura que confronta o poeta clássico Ricardo Reis, pois este, ao mesmo tempo que se relaciona amorosamente com Lídia, camareira do hotel Bragança, nega-se a assumir qualquer relacionamento publicamente, com o subterfúgio de que precisa e aprecia a solidão. Os diálogos existenciais entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa têm o timbre estético da Idade da Razão de Sartre, são visceralmente existenciais, temperados pelo humor jocoso e picaresco. A morte do poeta-criador, Fernando Pessoa, e sua moratória existencial de oito, nove meses, é a morte prenunciada do poeta-criatura Ricardo Reis. Até quando as criações literárias sobrevivem à morte de seu criador?! Ricardo Reis é um personagem literário que tem uma existência relativamente autônoma em relação ao poeta Fernando Pessoa, mas sem o seu olhar, aos poucos vai fenecendo. O homem-signo Ricardo Reis precisa ser redivivo pelo olhar, pela interpretação de Fernando Pessoa que, ao deixar de existir, vai progressivamente apagando o signo literário Ricardo Reis. Como afirma um outro heterônomo de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, no poema longo Tabacaria; “(…) Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. Olho-o com desconforto da cabeça mal voltada e com o desconforto da alma mal-entendendo. Ele morrerá e eu morrerei. Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos. A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também. Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta. E a língua em que foram escritos os versos. Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas (…)” Os diálogos existenciais de O Ano da Morte de Ricardo Reis têm o tom da época em que se deram, a década de trinta em uma Europa carcomida pelo fascismo. Nesse contexto, a efemeridade da existência converte-se em uma categoria metafísica e poética na escrita de José Saramago.

6- O triunfo do fascismo como a morte da poesia

O romance de Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, é um libelo anti-fascista. Um romance engenhoso que desnuda a face obscura do fascismo em defesa de uma sociedade aberta e democrática. O seu ano de publicação, 1984, final da guerra fria, pode parecer anacrônico. Afinal, iluminar literariamente um período já superado da história, o fascismo das décadas de 30 e 40 do século XX, parece algo ultrapassado. No começo dos anos 90, com a queda da União Soviética e o triunfo neoliberal dos EUA, Francis Fukuyama, filósofo estadunidense, falará na morte da história, pois segundo este, o triunfo do capitalismo marca o fim da sucessão dos modos de produção. O capitalismo liberal ocidental é o modelo último, o triunfo definitivo da civilização iluminista. Saramago, intelectual de esquerda de base marxista, estava correto, o lançamento de O Ano da Morte de Ricardo Reis em 1984, logo após o Memorial do Convento de 1982, é corroborado pelo tempo histórico atual, do século XXI, onde o fascismo que todos supunham morto e enterrado, voltou. Agora, um outro filósofo, mais lúcido, o camaronês Achille Mbembe, cunhou o termo Necropolítica que melhor traduz o tempo atual: a política que faz morrer e deixa viver. Faz morrer os grupos humanos descartáveis para o capital, como a população palestina de Gaza, genocídio tolerado pela Europa. A mesma que passou décadas vociferando contra o holocausto nazista, cala-se diante do genocídio do povo palestino em Gaza. A necropolítica que elege uma elite de bilionários para remodelar a dinâmica de acumulação do capital, agora em base algorítmica. O capital plataformizado transforma a intimidade em mercadoria e cria o capitalismo de vigilância onde os dados e o comportamento pessoal rastreado em rede é fonte de riqueza para as Big Techs. O colonialismo não morreu, se reinventou, agora ele é cultural e digital. O inimigo é o estrangeiro latino vivendo nos EUA, o judeu do século XXI. A Gestapo (Geheime Staatspolizei)é o ICE, polícia de imigração estadunidense, e o bigodinho mefistofélico do sec. XXI é um histriônico apresentador de reality show de cor alaranjada. Vivemos a era do capitalismo de vigilância e do colonialismo digital onde o que importa é performar. O capital tornou-se mais flexível, algorítmico, aprendendo a extrair mais-valia do trabalho abstrato, da prestação de serviços. A fábrica já não é mais o espaço do confinamento e da exploração, é a bolha digital das redes sociais. No romance de Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Portugal é invadida por espanhóis que fugiam da Guerra Civil (1936-1939). A ascensão do fascismo, retratada no romance, tem o prenúncio da tragédia coletiva que está por vir. Lídia, a camareira amante de Ricardo Reis, tem um irmão comunista que se rebela contra a ditadura portuguesa de Salazar e termina morto. É nessa atmosfera de exaltação fascista e morte de rebelados que finda o romance. Ricardo Reis, após oito meses de peripécias na Lisboa salazarista dos anos 30, segue o seu criador, Fernando Pessoa, e a saída de cena do poeta é a metáfora literária da morte da poesia em uma Portugal dominada pelo fascismo que se alastra por toda Europa.

Conclusão

Quando György Lukács, em A Teoria do Romance, afirma que “o romance é a epopeia de um mundo abandonado por Deus”, significando que no mundo moderno- burguês e industrial- o romance, como forma estética, ocupara o lugar da epopeia, então forma dominante entre os clássicos da antiguidade e idade média. Justificando que esse fenômeno estético-literário dava-se em razão da fragmentação do mundo moderno, na medida em que a religião e sua escatologia já não eram mais as únicas fontes de significado e que, assim, na modernidade o significado deveria ser construído individualmente. Apresentando o romance como a busca de sentido em um mundo caótico e fragmentado, uma odisseia individual pela unidade de sentido perdida. Encontramos em O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago, a expressão literária exemplar da formulação de Lukács. Saramago ao dar vida literária ao personagem da poética pessoana, Ricardo Reis, convertendo-o no protagonista de seu romance histórico, busca na poesia mística e metafísica de Fernando Pessoa a unidade de sentido perdida em uma Portugal fascistizada pela ditadura de Salazar. O Ano da Morte de Ricardo Reis, assim, é uma epopeia da busca pela unidade de sentido em um mundo desiludido e fragmentado pelo fascismo. Um dos romances mais criativos e inventivos da literatura ocidental que resgata o poder da poesia como força metafísica capaz de desafiar a fúria de tempos políticos caóticos. Saramago, com mestria, conseguiu como poucos, nesse romance, reunir: poesia, metafísica e política. A percepção de que o romance é o inverso crítico e individualista do épico, expressa-se na frase final do romance de Saramago: “Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera.” Em Camões é: “Onde a terra se acaba e o mar começa.” Se no poeta de Os Lusíadas a frase significa grandes navegações, glórias e futuro grandioso; no romance de Saramago, a frase reelaborada, significa decadência, isolamento e estagnação.

Fonte Bibliográfica:

PESSOA, Fernando. Poesias. Organização de Sueli Barros Cassal. Porto Alegre: L&PM, 2007.

SARAMAGO, José. O ano da morte de Ricardo Reis. Lisboa: Editora Caminho, 1984.

Compartilhe: