
Elena Ferrante diz que as cidades têm personalidade própria. Em sua tetralogia napolitana, de fato, Nápoles tem a força de um personagem, como que moldando o caráter daqueles que a habitam. Passei todo o doutorado na ânsia de conhecer aquela Nápoles de Ferrante: suja, religiosa, caótica, barulhenta, corrupta, desordenada e estranhamente orgânica. Infelizmente, não foi possível.
Quando finalmente tive a oportunidade de passar uns dias por lá, entusiasmada por enfim ter a oportunidade de visitar a cidade natal da minha escritora viva preferida, me surpreendi ao conversar com nativos que nunca tinham ouvido falar em Ferrante. Lá, ela não era ninguém. A cidade correspondia, sim, ao que Ferrante descrevia em seus livros. Acrescentaria apenas as bandeiras solidárias à Palestina por todos os lados e um fato inusitado que me incomodava a cada esquina: homenagens a Diego Maradona. Eram pinturas, desenhos, murais, pôsteres, bonecos de souvenir. Essas homenagens, de tom divino, se confundiam com os pequenos altares dedicados a santos que também se vislumbravam nos becos.
Não entendo patavinas de futebol e só lembrava de um cara gordo que tinha tido problemas com cocaína e falecido na pandemia. Anos depois, estamos em 2026, copa do mundo, eu sem saber se devia torcer ou não para a Argentina – me desculpem, não acho que a gente tem que ter opinião formada sobre tudo, muito menos sobre nossos hermanos racistas -, a curiosidade sobre Maradona foi reacendida. Vi um documentário sobre ele. Ao contrário de Messi, moço de família, comportado, contido e sisudo – a ponto de não se pronunciar politicamente, o que para muitos pode configurar uma qualidade -, Maradona foi aquele cara autêntico, naturalmente espirituoso e risonho, dotado de uma cabeleira de dar inveja e que levantou um timeco de uma cidade pobre e dominada pela máfia no sul da Itália.
Comecei a entender a adoração – também no sentido religioso – da cidade por ele. E é até esquisito uma senhora de quarenta anos como eu ter um crush tardio por um homem que já morreu e que sofreu tanto com adicções, mas talvez as imperfeições é que nos atraiam. É como Sontag diz: Pessoas loucas: aquelas que ficam sozinhas e queimam. E Maradona parece ter sido uma delas. Irreverente, desinteressado em agradar, íntimo da bola e da torcida, espontaneamente carismático, mas, também como Nápoles, de espírito caótico, desordenado, eu diria mesmo descontrolado.
Revendo fotos de quando lá estive, me pergunto o quão mutáveis são as cidades, se tanto quanto nós, se menos, se mais, se hoje eu conheceria uma nova Nápoles, com um outro olhar, menos mirado na literatura e mais próximo do futebol. Atualizando a citação de Heráclito, que pregou que não entramos duas vezes no mesmo rio, queria deixar registrado aqui que talvez tampouco pisemos duas vezes na mesma cidade.








