O Banco Master, quando ainda se chamava Máxima, realizou remessas de US$ 531 milhões — equivalente a cerca de R$ 2,8 bilhões na cotação atual — para a empresa One World Services (OWS) entre dezembro de 2018 e abril de 2021. A OWS é investigada pela Polícia Federal sob suspeita de lavar dinheiro para a facção criminosa PCC e o grupo terrorista Hezbollah.

A informação consta de relatório da PF, que aponta que a instituição de Daniel Vorcaro fechou os olhos deliberadamente para a realidade de seus clientes, incompatível com os valores transacionados. Durante a Operação Colossus, deflagrada em 2022 e com desdobramentos em 2024 e 2025, as autoridades acompanham movimentações da monta de R$ 60 bilhões, sendo R$ 8 bilhões em operações de câmbio.
No caso do Master, foram realizadas 331 operações sob a justificativa de aumento de capital de uma offshore da OWS em Miami. Pela regra da época, cada operação exigia ata societária comprovando o aumento, mas o banco entregou apenas 15 atas às autoridades. A finalidade declarada ainda estava inadequada, segundo o BC, reduzindo a cobrança de impostos — operações de aumento de capital pagavam IOF de 0,38%, enquanto compra de ativos no exterior pagava 1,1%.
Além disso, as atas continham indícios de fraudes, com mais de uma ata do mesmo dia e em datas consecutivas. “Alguns desses arquivos foram digitalizados com alguns minutos de diferença uns dos outros”, disse o relatório da autoridade policial.
A PF consultou o BC sobre as transações e repassou as informações, o que levou à abertura de investigação própria pela autarquia. “As apurações sobre esse tema foram objeto de acordo firmado com o BC, que encerrou o caso no âmbito administrativo, sem reconhecimento de irregularidade”, disse o Master em nota enviada à Folha de S.Paulo. O banco não divulgou o valor da multa acertada com a autoridade monetária.
Em 31 de dezembro de 2022, o Banco Central dispensou a obrigatoriedade de documentação para justificar operações de câmbio no exterior, visando desburocratizar o processo. Essa regra era o principal instrumento da PF para apontar ilicitude nas ações das instituições financeiras.
A OWS pertence ao empresário José Eduardo Froes Junior e a seus irmãos Adriano e Renato. A companhia atua como OTC (over-the-counter), vendendo criptoativos diretamente, com menos regulamentação que intermediários tradicionais como Binance e Mercado Bitcoin.
A OWS fez operações de compra de criptoativos em nome de empresas que receberam quantias de pessoas ligadas a atividades terroristas ou ao tráfico internacional de drogas. Entre elas está o corretor de criptoativos Dante Felipini, condenado a 17 anos de prisão em 2025 por lavagem de dinheiro e associação criminosa. Felipini comprou bitcoins em nome de um “laranja intencional” de uma liderança do PCC, segundo a PF.
A defesa de Felipini informou que a Justiça derrubou a acusação por financiamento ao terrorismo. “Os outros pontos da sentença estão sendo analisados. Em relação às demais acusações, certamente haverá o esclarecimento junto ao Poder Judiciário no momento oportuno.”
Felipini foi preso em janeiro de 2024 ao tentar embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Ele mantinha residência lá desde 2022 e possuía uma offshore autorizada pelo regime emiradense a vender criptoativos.
A PF identificou ao menos outras sete empresas com histórico suspeito que mantiveram transações de milhões de reais com a OWS.
A reportagem tentou contato com Froes Junior, CEO da OWS, que reside na África do Sul, por e-mail e LinkedIn, mas não obteve resposta.
O juiz federal Diego Paes Moreira recusou pedidos de prisão e sequestro de bens contra o executivo, afirmando que a autoridade policial “não demonstrou que o investigado tivesse ciência inequívoca de que os valores recebidos de empresas de fachada tinham origem em crimes como o tráfico de drogas e o contrabando”.
Na época dos fatos, havia resistência de parte do setor bancário em trabalhar com criptomoedas. Poucos bancos, como os citados na investigação da PF, foram parceiros principais do mercado de ativos virtuais.
Os autos mostram que os bancos Topázio e MS Bank encerraram relações com a OWS após consultar o Banco Central e constatar falta de documentação adequada. O banco suíço UBS se recusou a abrir conta para Froes Junior por não aceitar recursos de transações com criptoativos.
Desde o fim do ano passado, operações de câmbio com criptoativos foram regulamentadas pelo BC e devem ser reportadas seguindo as mesmas regras de outras casas de câmbio.
Com informações da Folha de S.Paulo.