A 32ª edição do Grito dos Excluídos reuniu nesta segunda-feira (7) marchas em mais de 50 cidades de todas as regiões, segundo os organizadores. Faixas, bandeiras e palavras de ordem ecoaram o lema “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”. As pautas incluíram moradia digna, reforma agrária, educação pública de qualidade, defesa do SUS, combate ao feminicídio e às violências contra mulheres, racismo e LGBTfobia, além do fim da escala 6×1.

No Rio de Janeiro, o ato saiu depois do Desfile de Sete de Setembro e atravessou a Avenida Presidente Vargas. A Escola de Teatro Popular, movimento de teatro político e educação popular, encenou esquetes no meio da coluna em defesa da soberania e da democracia. Um dos coordenadores é o dramaturgo Julian Boal, filho de Augusto Boal (1931-2009), criador do Teatro do Oprimido — método que transforma o espectador em agente capaz de ensaiar respostas à opressão. Boal disse que a intervenção visava atrair mais gente e mostrar que a participação democrática não se esgota no voto. “O que a nossa cena tentou fazer é recolocar a questão de qual é o peso das instituições. Tentar discutir que dentro das instituições a gente pode fazer muita coisa, mas que o nosso todo é muito maior do que aquelas eleições podem colocar”, completou.
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A moradia foi um dos gritos mais fortes. Ricardo Pitta, do Movimento Quilombos Urbanos Luta por Moradia Digna — quatro ocupações na cidade —, sustentou que só a mobilização popular reverte injustiças contra os segmentos “mais vulneráveis e invisibilizados”. Lamentou demandas “subordinadas ao calendário eleitoral”. “Todo ano os moradores estão sofrendo, ameaçados de despejo, muitos deles, inclusive, em imóveis públicos que, em vez de estarem cumprindo sua função social, como prevê a Constituição, estão sendo ameaçados de serem leiloados para atender aos interesses da especulação imobiliária”.
Houve críticas ao tarifaço dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros e apelos pelo fim da escala 6×1, já aprovada na Câmara e pendente no Senado após as eleições. Outra ala exibiu fotos de mortos da Ditadura Militar (1964-1985) e pediu vigilância contra o autoritarismo. Um globo cenográfico de cerca de três metros sinalizou a pauta ambiental. Cerca de 15 pessoas tentaram hostilizar participantes; a PM interveio e o grupo recuou, sem confusão.
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Em São Paulo, a coluna cruzou o centro e encerrou com missa na Catedral da Sé, voltada à população em situação de rua. Antes, houve café da manhã comunitário. Miriam Hermogenes, da Central dos Movimentos Populares, uma das organizadoras, ligou a liberdade plena ao fim da população de rua. “A gente faz uso desse dia para dizer: Olha, não temos liberdade ainda, temos que avançar muito para ser um país, uma sociedade em liberdade”, afirmou à Agência Brasil.
Frei David Santos, do Educafro, pediu defesa da democracia contra interferência econômica no pleito. “É importante estarmos juntos, hoje, pela Democracia”. Deuza Cordeiro de Lima protestou contra a violência policial: o filho Thiago foi morto em janeiro de 2023 no centro da capital. “Vim como em outros anos denunciar a violência. Meu filho foi morto pela polícia, e seus assassinos estão livres. Ele era inocente, mais um de tantos, e não vou ficar quieta”. Célia Souza e amigos reivindicaram teto digno. “Eu vim hoje pela luta. Por moradia, que é algo cuja importância é a mais básica, da qual não podemos abrir mão”.
Em Brasília, o Núcleo de Ecologia Integral tratou a crise ecológica como justiça social, responsabilidade política e compromisso com a vida. “O planeta está sendo destruído e se não mudarmos a política ecológica, a forma como estamos tratando nossa casa comum, usando os recursos naturais da forma como estamos gastando, logo não teremos mais onde habitar”, disse a economista aposentada Maria do Carmo de Jesus Botafogo.
O grupo apresentou carta de compromisso com a ecologia integral, fruto de seminário interno, voltada a candidatos progressistas ao Executivo e ao Legislativo. O texto tem quatro eixos: políticas agrícolas e fundiárias; política urbana e resíduos no DF e Entorno; justiça climática e proteção às vítimas; e propostas para a nascente da Estação Ecológica de Águas Emendadas, que alimenta as bacias Tocantins-Araguaia e Paraná. “Passadas as eleições, entregaremos uma cópia a todos os eleitos, independentemente do campo ideológico, pois eles terão as mesmas obrigações com o meio ambiente”, afirmou a engenheira florestal Ana Clara Botafogo, filha de Maria do Carmo.
A professora universitária Altaci Kokama avaliou que, em 32 edições, o Grito se firmou como espaço em que quem está à margem “têm voz e vez para apresentar suas demandas, suas reivindicações”. “Os excluídos são aqueles que não têm casas, moradia, trabalho, alimento, os que estão buscando justiça”. Sobre a dificuldade de convocar, observou: “Quem tem mais dinheiro para financiar suas ações consegue mobilizar mais pessoas. Para trazer os excluídos, por exemplo, muitas vezes é preciso ajudar com transporte, comida, e nós não temos toda a estrutura necessária. Muitos têm vontade de participar, mas não têm condições”. O núcleo, disse, mantém debates permanentes nas comunidades.
Fonte: Agência Brasil