Geral - -
Trend dos anos 80: brincadeira reacende debate sobre demanda computacional e custo ambiental
Termômetro da Política
Compartilhe:

O feed voltou a ficar ‘oitenteiro’. Desde o fim de semana, Instagram, TikTok, Threads e Facebook se encheram de retratos com cabelo volumoso, ombreiras, neon, flash frontal e granulação de filme — fotos atuais refeitas como se tivessem sido tiradas no meio dos anos 1980. A brincadeira, batizada de “trend dos 80” ou “como você seria nos anos 80”, usa ChatGPT e Gemini: o usuário sobe um retrato e pede à inteligência artificial que recrie roupa, penteado, cenário e textura da fotografia, em tese sem trocar o rosto.

Trend parece brincadeira, mas tem alto custo ambiental
Trend parece brincadeira, mas tem alto custo ambiental (Foto: Redes sociais)

Guias publicados ensinam como deve ser prompt que fixe duas coisas: o que deve permanecer (traços, tom de pele, identidade) e o que pode mudar (cabelo com volume, jaqueta jeans ou blazer estruturado, walkman, sala com TV de tubo, studio com degradê rosa e azul, “grão” de 35 mm). O modelo gera uma imagem nova; dá para pedir outra roupa, outro fundo ou um ano específico, como 1985. Depois é só baixar e postar.

Favorite o Termômetro da Política no Google e acompanhe as notícias mais importantes para o seu dia

Por baixo do filtro de nostalgia há um modelo generativo. A foto serve de âncora de identidade; o texto funciona como instrução de estilo. O sistema — em geral um modelo de difusão ou um gerador nativo do chatbot — sintetiza pixels que combinem o rosto enviado com um repertório visual da década: granulação, cores um pouco desbotadas, flash duro, neon, cassete, fliperama. Se o comando for vago (“me ponha nos anos 80”), a IA costuma deformar o rosto. Por isso os tutoriais insistam em “não mude meus traços”. O resultado não é um filtro de camada única sobre a foto original: é uma imagem inventada, treinada em milhões de retratos e recortes da cultura pop.

A moda entra numa fila já conhecida. Em 2023, apps como Epik e Reface bombavam com “yearbook” dos anos 90. Em março de 2025, o gerador de imagens do ChatGPT disparou a febre Ghibli: Sam Altman escreveu que as GPUs da OpenAI estavam “derretendo”, impôs limite de uso e falou em demanda “biblical”. No mesmo ano, o Gemini popularizou retratos retrô e o efeito Nano Banana. A diferença agora é a escala do acesso: não é preciso baixar um app pago nem esperar 24 horas. Basta o chatbot que já está no celular.

O preço invisível de cada retrato

Gerar uma imagem pesa muito mais do que mandar um texto. Relatório da Universidade das Nações Unidas (UNU), de junho de 2026, estima cerca de 2,9 Wh por imagem típica de IA — da ordem de 60 vezes uma resposta curta de texto e cerca de 1.450 vezes uma classificação simples. Em carbono e água, o mesmo estudo aponta algo como 1,22 g de CO₂e e 28,6 ml de água por imagem padrão. Um vídeo curto de alta complexidade pode passar de 415 Wh. São médias globais: o impacto real muda com o tamanho do modelo, a resolução, o número de tentativas (quase ninguém posta a primeira geração) e a matriz elétrica do data center.

Leia também
Grito dos Excluídos mobiliza manifestantes em mais de 50 cidades pelo Brasil

Quando milhões de pessoas pedem a mesma transformação no mesmo fim de semana, o pico não é simbólico. GPUs de inferência trabalham a plena carga, aquecem e exigem refrigeração contínua. Em 2025, data centers no mundo consumiram da ordem de 448 TWh, segundo a UNU — o suficiente para figurar entre os 11 maiores “países” em uso de eletricidade. A Agência Internacional de Energia projeta cerca de 945 TWh em 2030, perto de 3% da eletricidade mundial, com servidores acelerados (o hardware da IA) puxando a alta. A fatia da IA no consumo dos data centers, estimada em torno de 20% em 2025, pode chegar a 40% no fim da década.

Como isso sobrecarrega o data center

Um retrato oitenteiro não “mora” no celular. O pedido viaja para um centro de servidores, em geral nos Estados Unidos ou na China, onde mais de 90% do hardware em nuvem especializado em IA está concentrado. Lá, placas gráficas executam bilhões de operações; cerca de 40% a 50% da energia do prédio vai para a informática e até 40%, em instalações menos eficientes, para o ar-condicionado ou o resfriamento líquido. Chips de IA atuais dissipam mais de 1.000 W cada um: o ar já não dá conta, e o setor migra para líquido direto no chip — o que reduz ventiladores, mas exige água, bombas e infraestrutura nova. Cerca de 80% dos data centers antigos nem comportam esses racks. A resposta da indústria tem sido construir mais, mais rápido e mais perto de subestações.

As consequências saem do prédio. Mais demanda elétrica atrasa a descarbonização da rede se o kWh extra vier de gás ou carvão — ainda relevantes no mix que alimenta data centers. A UNU calculou cerca de 189 milhões de toneladas de CO₂ e associadas à eletricidade desses centros em 2025. A Allianz, em análise de junho de 2026, fala em pegada mais ampla (ciclo de vida incluso) da ordem de 286 MtCO₂ e alerta que, sem limpar a rede, as emissões dos data centers podem mais que dobrar até 2030. Há água na conta duas vezes: no resfriamento evaporativo do local onde ficam os servidores e, de forma indireta, nas termelétricas que geram a luz. Em regiões secas, novos projetos já disputam aquífero com cidades. Há também lixo eletrônico: servidores de IA duram três a cinco vezes menos que os tradicionais; a UNU projeta 2,5 milhões de toneladas anuais de e-lixo ligado à IA em 2030.

Nada disso torna ilegal ou “proibida” a foto da trend. Torna visível o que a interface esconde: cada geração é um pulso de energia, calor e água num sistema que já opera no limite em vários eixos. Trends anteriores — Ghibli, bonequinho 3D, estúdio profissional — mostraram o padrão. A onda dos anos 80 é só o episódio mais recente de um mesmo mecanismo: um prompt fácil, milhões de tentativas, GPUs no teto e uma fatura ambiental que não aparece no Stories.

Compartilhe: