Uma barata se tornou, nas últimas semanas, o mascote improvável de um movimento satírico que reúne milhares de jovens indianos insatisfeitos com o cenário político e econômico do país. O que começou como uma reação a um comentário do presidente da Suprema Corte da Índia ganhou forma em um coletivo virtual chamado Cockroach Janta Party (Partido do Povo Barata).

O episódio ganhou força depois que o magistrado Surya Kant comparou, durante uma audiência, jovens desempregados que migram para o jornalismo e o ativismo a baratas e parasitas. Embora ele tenha posteriormente esclarecido que se referia a pessoas com diplomas falsos, o estrago já estava feito. A comparação gerou indignação e memes nas redes sociais, levando à criação do movimento.
O Cockroach Janta Party não é um partido político formal. Trata-se de um coletivo on-line satírico cujos critérios de adesão incluem estar desempregado, ser preguiçoso, passar muito tempo na internet e ter “a habilidade profissional de reclamar”. O movimento foi idealizado por Abhijeet Dipke, estrategista de comunicação que já trabalhou com o partido Aam Aadmi.
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“Pensei que deveríamos todos nos unir, talvez simplesmente criar uma plataforma”, disse Dipke. Em poucos dias, o coletivo atraiu dezenas de milhares de inscrições por meio de um formulário on-line e popularizou a hashtag #MainBhiCockroach (“Eu também sou uma barata”).
A iniciativa ganhou apoio de figuras da oposição, como as parlamentares Mahua Moitra e Kirti Azad, além do advogado Prashant Bhushan. Nas redes, jovens passaram a se identificar publicamente com o símbolo, inclusive participando de atos presenciais vestidos como baratas.
O crescimento do movimento foi rápido. Em menos de uma semana, a conta do Instagram do CJP superou a marca de 10 milhões de seguidores, ultrapassando inclusive a conta oficial do Bharatiya Janata Party (BJP). Já no X (antigo Twitter), a conta foi bloqueada na Índia.
Dipke afirma que o movimento reflete uma geração que se sente pouco representada pela política tradicional. “Acho que o CJP é apenas o começo. Os jovens estão fartos do sistema político atual e mais organizações juvenis surgirão”, declarou.
Embora o tom seja predominantemente irônico, o coletivo também levanta pautas como transparência eleitoral, reforma da mídia e maior representatividade feminina. O site do movimento mistura humor autodepreciativo com críticas ao desemprego, à desigualdade e ao custo de vida crescente.
Para muitos jovens, a escolha da barata como símbolo faz sentido. O inseto representa resiliência e capacidade de sobreviver em condições adversas — características que, segundo os apoiadores, refletem a realidade de uma parcela da juventude indiana diante de um mercado de trabalho instável e de promessas de mobilidade social que parecem cada vez mais distantes.
Com informações da BBC.