A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (7) a sexta etapa da Operação Unha e Carne, que apura relações entre agentes públicos e organizações criminosas no Rio de Janeiro. A ação foca em uma rede de postos de combustíveis na região metropolitana que teria movimentado R$ 7,6 bilhões em suposto esquema de lavagem de dinheiro, com envolvimento de figuras políticas e policiais.

Entre os principais alvos de mandados de busca e apreensão estão Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado pelo União Brasil, e o delegado Marcus Amim, que comandou a Secretaria Estadual de Polícia Civil. Outros policiais em atividade também integram o rol de investigados. A Justiça autorizou ainda o sequestro de bens e valores, além da suspensão das atividades de empresas vinculadas ao grupo.
No total, agentes cumpriram 19 mandados de busca nos municípios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Resende e na capital fluminense. Em uma residência em Niterói, foram apreendidas armas, joias, dinheiro em espécie e veículos de luxo.
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As investigações tiveram início a partir de um relatório de inteligência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). “Além do crime de organização criminosa, os investigados poderão responder por contratação direta ilegal e lavagem de dinheiro, além de outros que poderão surgir no decorrer das investigações”, informou a Polícia Federal.
Entre os alvos figura também o ex-policial militar e miliciano Juracy Alves Prudêncio, conhecido como Jura, apontado em relatório da CPI das Milícias da Alerj, de novembro de 2008, como líder de grupo paramilitar em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Ele foi condenado e preso no ano seguinte por homicídio e associação criminosa.
Outro investigado é o inspetor da Polícia Civil Pablo Jukia Felix Ferreira, o Pablo Russo, que atuou na equipe do ex-secretário Marcus Amim em diversas delegacias. De acordo com a PF, ele seria proprietário, por meio de interpostas pessoas, de uma rede de postos de gasolina. Mais de 80 empresas, ativas ou inativas, estariam ligadas a parentes do policial.
A operação se insere no contexto da decisão do Supremo Tribunal Federal na ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, que determinou à Polícia Federal a condução de apurações sobre conexões entre agentes públicos e facções criminosas.
Na quinta-feira passada (2), a quinta fase da Unha e Carne mirou o empresário Fernando Trabach Gomes. Em 2022, durante a campanha à reeleição do então governador Cláudio Castro (PL), postos ligados a ele abasteceram grande parte da frota utilizada pelo candidato. A prestação de contas ao Tribunal Superior Eleitoral registrou gastos de R$ 478 mil com cerca de 70 mil litros de diesel, com dez dos doze postos fornecedores pertencentes ao empresário. Após a posse, empresas do grupo firmaram contratos com o governo estadual. Trabach já havia sido investigado pelo Ministério Público do Rio por suposta integração a organização criminosa, com defesa então exercida pelo advogado Rodrigo Bacellar.
Márcio Canella iniciou a carreira política como vereador de Belford Roxo em 2012. Eleito deputado estadual em 2015, cumpriu três mandatos na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e se licenciou para exercer o cargo de vice-prefeito de Waguinho entre 2017 e 2019. Os antigos aliados se distanciaram após as eleições presidenciais de 2022, quando Canella apoiou Jair Bolsonaro (PL) e Waguinho optou por Lula. Em 2024, Canella venceu a disputa pela prefeitura de Belford Roxo. No início de abril de 2026, renunciou ao cargo para disputar o Senado, com apoio do senador Flávio Bolsonaro e do deputado estadual Douglas Ruas. A vice-prefeita Mariana Malta assumiu o Executivo municipal.
O delegado Marcus Vinícius Amim esteve à frente da Polícia Civil fluminense de outubro de 2023 a agosto de 2024. Sua nomeação exigiu aprovação de projeto de lei na Alerj para permitir que delegados com menos de 15 anos de carreira comandassem a pasta. Em 2018, quando ainda era deputado, Márcio Canella propôs a concessão da Medalha Tiradentes ao delegado Amim.
Desde dezembro de 2025, a operação acumula cinco fases anteriores, inicialmente voltadas a supostos vazamentos de informações sigilosas de ações policiais contra o Comando Vermelho (CV). Esses vazamentos teriam comprometido operações e beneficiado alvos ligados à facção.
A primeira fase, em dezembro de 2025, teve como alvo o então presidente da Alerj, deputado Rodrigo Bacellar — hoje cassado e preso. Segundo a PF, ele teria repassado dados da Operação Zargun, deflagrada em setembro daquele ano, ao ex-deputado Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Joias, apontado como articulador político da facção. O vazamento teria permitido destruição ou ocultação de provas.
A segunda fase, ainda em dezembro de 2025, resultou na prisão preventiva do desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2). A suspeita era de que o magistrado teria transmitido informações a Bacellar, que as repassaria a TH Joias. Mensagens e registros de ligações indicariam relação próxima e troca de favores.
A terceira fase, em 27 de março de 2026, levou à nova prisão de Rodrigo Bacellar em Teresópolis, após cassação de seu mandato pelo TSE no escândalo da Ceperj e denúncia da Procuradoria-Geral da República. A PF relacionou as condutas à ADPF 635, destacando riscos ao combate ao crime organizado. A denúncia da PGR abrange Bacellar, TH Joias, Macário Júdice Neto e outros, com indícios de proteção institucional ao crime.
Na quarta fase, em 5 de maio de 2026, foi preso o deputado estadual Thiago Rangel (Avante), suspeito de liderar esquema de fraudes em contratações na Secretaria Estadual de Educação, com direcionamento para empresas previamente selecionadas em área de sua influência política.
A quinta fase, na última quinta-feira (2), prendeu o pastor Márcio Poncio, ligado à Máfia do Cigarro, além de cumprir mandados contra o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, e Rodrigo Bacellar — ambos já detidos. As apurações, iniciadas em 2021, incluíram a Operação Smoke Free de 2022. Em um endereço de Adilsinho, foram encontradas listas com nomes de políticos, entre eles o ex-governador Cláudio Castro e o ex-deputado Alexandre Ramagem. A PF investiga supostos pagamentos indevidos, doações eleitorais e contabilidade para lavagem de capitais. Na época, a Máfia do Cigarro controlava ao menos 45 dos 92 municípios fluminenses, onde só maços produzidos pela quadrilha podiam ser comercializados.
Com informações do portal g1.