Professor, pesquisador, escritor e tradutor. Doutor em Ciência da Religião pela UFJF com pesquisa de pós-doutorado na UFPB. E-mail: danilo.smendes@hotmail.com
Professor, pesquisador, escritor e tradutor. Doutor em Ciência da Religião pela UFJF com pesquisa de pós-doutorado na UFPB. E-mail: danilo.smendes@hotmail.com
A nostalgia das trends denuncia nossa falta de imaginação política
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Trend parece brincadeira, mas tem alto custo ambiental
Trend recria imagens estilo anos 80 com ajuda de ferramentas de IA (Foto: Redes sociais)

Dois fatos recentes me chamam atenção para o passado. Ou, melhor, para o sentido que a ideia de passado tem em nossas vidas. Em primeiro lugar, a trend que tomou as redes na última semana: pedir a uma inteligência artificial generativa para emular como cada um seria nos anos 80. Em segundo lugar, a Livraria Leonardo da Vinci (RJ) divulgou seus livros mais vendidos no mês de agosto, dentre os quais está Realismo Capitalista em 3° lugar. Para além do interessante fato de que uma obra de 2009, publicada há 6 anos no Brasil por uma editora independente (Autonomia Literária), ainda vende bastante, importa pensar que ela talvez seja mais relevante do que nunca em sua proposta basilar. A ideia de Mark Fisher é, grosso modo, argumentar que não apenas esse etéreo ser que chamamos que pensamento está engessado sob o capitalismo contemporâneo, mas a própria cultura não encontra formas de pensar o novo fora do sistema que se impõe como absoluto. Daí a célebre frase: “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. Mais fácil ainda é imaginar como seríamos nos anos 80, sobretudo com ajuda de uma IA.

Para além de qualquer crítica estética, sem esquecer que boa parte das pessoas que entram na trend viveram de fato os anos 80, pesa o fato de que nos falta possibilidades de imaginação de futuro — o que, particularmente, acho uma constatação muito triste. No início do ano, a trend era relembrar como estávamos há uma década, lembranças vividas já dentro de uma mesma plataforma da Meta. Já há indícios de que a próxima onda será uma emulação de outras décadas: de 1920 em diante. Não é apenas assustadora a emulação muitas vezes bem-feita, mas o aparente desinteresse em imaginar um futuro que seja diferente do que vivemos hoje. Celulares e computadores mais modernos, carros autônomos, eletrodomésticos mais inteligentes: nada disso é uma transformação de fato, apenas uma atualização do mesmo sistema. Por isso a constatação de Fisher é tão pertinente, porque o capitalismo se impõe como uma realidade sem saída, como um cancelamento do futuro, como um fim da história. E à cultura só resta repetir o passado.

Realismo Capitalista, de Mark Fisher
Realismo Capitalista, de Mark Fisher (Imagem: Divulgação/Editora Autonomia Literária)

Aqui, não há museu de grandes novidades: o tempo parece mesmo parado. Na política brasileira, enfrentamos a mesma eleição desde 2018: PT x Bolsonaro nas mais diversas configurações possíveis, com líderes principais ou coadjuvantes tentando assumir seu papel. Não há equivalência possível entre eles, de um lado democratas, de outro a extrema-direita mais suja que há. Dos dois lados, entretanto, a impossibilidade de propor o novo. Diferentemente dos primeiros governos Lula, que se empenhavam na construção do país, agora o apelo é à reconstrução do país. Antes, apontava-se para o futuro, hoje, olhamos para o passado. O capitalismo, junto com o neoliberalismo da extrema-direita brasileira, empurrou o projeto político do campo progressista para um certo conservadorismo da democracia fundamental. Assim, não há tempo para sonhar com o novo, senão com a manutenção do básico. Não há tempo para criar, mas para reconstruir a democracia, defender os direitos básicos, assegurar eleições justas etc. Até o irrompimento do novo, como a excelente proposta do fim da escala 6×1, se reveste de referências a algo passado já estabelecido: ela não é mais do que um aprofundamento da ideia de bem-estar social. Do lado de lá, apela-se a um regresso aos tempos mais sombrios de nossa história, cujos porões permanecem inundados de sangue inocente.

Tudo parece apontar para a nostalgia como um dos afetos políticos mais relevantes hoje. A ideia de um afeto político, aqui, inclui o motivo pelo qual se vota em alguém. No entanto, é mais do que isso. Afeto político é aquilo que nos politiza, que nos impele ao engajamento, real e virtual, que nos dispõe diante do mundo a partir de uma certa matriz que, no limite, implica não apenas o modo de agirmos, mas também de sentirmos os fatos brutos do mundo. Já nos organizamos por amor, por ódio, por sobrevivência, por razão. Hoje, por nostalgia. Do “Lula lá” de 1989 à estética soviética de 1917 adotada por Jones Manoel, o que nos move é a realização de um passado idealizado, já que o futuro nos parece impossível de imaginar. O Brasil criança, que nascia com a esperança de um operário no poder, tornou-se um adulto ranzinza que diz que no seu tempo as coisas eram melhores. Entre trends e tradwifes, a nostalgia está dando as cartas na política, na cultura e nas redes. Minha esperança, para falar de um futuro próximo, é que o povo se lembre, nas urnas, que nos anos 80 cerca de 60% do país passava fome*. Depois dos governos do PT, essa taxa diminuiu para 0,6%, chegando ao menor nível já registrado na história**.

* 77 MILHÕES PASSAM FOME — Sarney recebe do sociólogo Hélio Jaguaribe um plano para combater a miséria no país. Publicado na Folha de S.Paulo, 9 de abril de 1986. http://almanaque.folha.uol.com.br/brasil_09abr1986.htm

** Insegurança alimentar no Brasil atinge menor índice da série histórica no governo Lula 3. Publicado no Brasil de Fato, 21 de julho de 2026. https://www.brasildefato.com.br/2026/07/21/inseguranca-alimentar-no-brasil-atinge-menor-indice-da-serie-historica-no-governo-lula-3/

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