Jornalista, fotógrafo e consultor. Mestre em Computação, Comunicação e Artes pela UFPB. Escreve desde poemas a ensaios sobre política. É editor no Termômetro da Política e autor do livro infantil "O burrinho e a troca dos brinquedos". Twitter: @gesteira.
Jornalista, fotógrafo e consultor. Mestre em Computação, Comunicação e Artes pela UFPB. Escreve desde poemas a ensaios sobre política. É editor no Termômetro da Política e autor do livro infantil "O burrinho e a troca dos brinquedos". Twitter: @gesteira.
Pelo fim das bets
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(Foto: Bruno Peres/Agência Brasil)

Quando as bets passaram a operar legalmente no Brasil, a expectativa inicial com a legalização era a mesma que se tem diante de qualquer outra droga. Apesar do mal social que sabidamente seria causado, o governo iria arrecadar com os impostos e investir em outras frentes. Assim funciona com o álcool, com o cigarro. Mas as bets trouxeram um peso social muito maior do que qualquer droga legalizada no país. O combo paixão por futebol somado às apostas esportivas encontrou no Brasil um terreno fértil para disseminação de algo tão nocivo quanto acessível. Está na palma da mão, estruturado com a simplicidade de um Pix, que todo brasileiro sabe fazer. O mal tornou-se vício e logo foi socialmente aceito. Hoje já faz parte do cotidiano assistir a um jogo de futebol e fazer uma fezinha.

Da mesma forma que as bets tomaram conta de todos os espaços publicitários possíveis, entraram nas vidas das famílias. Para onde a gente olha, tem publicidade com bet. Nas ruas, em grandes eventos. Tudo é patrocinado pelas bets. O negócio escalou de uma forma tão absurda que até espaços públicos são cedidos para divulgação desse tipo de atividade. No futebol, como era de se esperar, as bets estão por toda parte. Os clubes são patrocinados por bets, os campeonatos, os espaços de publicidade no campo e também os intervalos comerciais. O maior exemplo foi a transmissão da Copa do Mundo FIFA de futebol. Só dava anúncio de bet o tempo todo.

Era esperado que diversas famílias perdessem dinheiro por conta do vício em jogo, mas nem os mais pessimistas previam de início que o estrago fosse tão grande. O dossiê “A Saúde dos Brasileiros em Jogo” (IEPS, Umane e Frente Parlamentar da Saúde Mental) estima custo social anual de R$ 38,8 bilhões associado ao jogo, dos quais R$ 30,6 bilhões ligados à saúde: R$ 17 bilhões por mortes adicionais por suicídio, R$ 10,4 bilhões por perda de qualidade de vida com depressão e R$ 3 bilhões em tratamentos. Outros itens incluem seguro-desemprego (R$ 2,1 bilhões), encarceramento (R$ 4,7 bilhões) e perda de moradia (R$ 1,3 bilhão). O estudo adapta metodologia britânica aos dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD). Atendimentos no SUS por dependência de apostas e jogos de azar cresceram 140% em cinco anos. Afastamentos pelo INSS por ludopatia (vício em jogos) subiram cerca de 60% em 2025 (de 425 para 679 casos). Mais de 1 milhão de pessoas pediram autoexclusão por meio do sistema criado pelo governo federal.

Para além da tragédia social que as bets vêm causando com danos às famílias e um grave custo à saúde pública, há um fator que diferencia essa atividade de todas as outras drogas: o dinheiro não circula. Por pior que seja o álcool, porta de entrada para as demais drogas, quem compra cerveja estraga a própria saúde, prejudica a família, mas a economia continua a girar. Com as bets, é diferente. Todo o dinheiro vai para as plataformas e ali é perdido. O relatório da CPI das Bets já apontava o redirecionamento de gastos de classes C, D e E. Com base em estatísticas de pagamentos do Banco Central (Pix), o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz) estimou transferência líquida das famílias para o setor de R$ 62,5 bilhões somente em 2025. Com as explosão das bets na Copa, os números de 2026 devem ser ainda maiores.

Por mais que o governo arrecade com tributos, o impacto financeiro na economia com a evasão desse dinheiro é muito maior do que o volume arrecadado. O futebol brasileiro existia antes das bets e precisa se reorganizar para voltar a operar sem elas. 

Texto publicado originalmente na edição de 25.09.2026 do jornal A União.

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