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Rótulo de organização terrorista dado a PCC e CV pelos EUA pode prejudicar Flávio Bolsonaro, avalia pesquisador
Termômetro da Política
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A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais pode trazer consequências inesperadas para o cenário político brasileiro, especialmente na campanha presidencial de 2026. Para o professor de política internacional e comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Dawisson Belém Lopes, o movimento americano ainda é recente demais para previsões precisas, mas carrega riscos de efeito contrário ao pretendido.

Flávio Bolsonaro foi recebido com pouco prestígio na Casa Branca pelo presidente Donald Trump
Flávio Bolsonaro foi recebido com pouco prestígio na Casa Branca pelo presidente Donald Trump (Foto: Reprodução/Instagram)

“Qualquer previsão neste momento é imprecisa, porque é preciso entender como essa decisão será lida pela imprensa, por Flávio Bolsonaro, por Lula e por outros agentes políticos que influenciam o debate”, afirma o professor, que tem artigos e livros publicados sobre política externa ligada à América Latina e ao Brasil, com pesquisas realizadas em universidades na Alemanha, na Bélgica e na Índia.

Lopes reconhece que o tema da segurança pública é sensível para grande parte dos eleitores e que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pode tentar capitalizar politicamente sobre a medida, especialmente diante da pior avaliação do governo Lula nessa área, registrada em pesquisa Datafolha divulgada há duas semanas. No entanto, o especialista avalia que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com maior experiência em debates, pode reverter o argumento ao apontar a iniciativa como uma forma de interferência externa.

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“Essa medida pode ser vista como entreguismo, algo contra o Brasil, não a favor, porque prevê uma renúncia de soberania”, analisa.

A classificação foi anunciada dois dias após Flávio Bolsonaro se encontrar com Donald Trump e um dia depois de reunião com Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos. A partir de 5 de junho, as facções passarão a ser tratadas por Washington como ameaça à segurança americana, o que poderia abrir caminho para sanções e até intervenções mais diretas.

Para Lopes, esse cenário pode acabar prejudicando o próprio senador. “O tiro pode sair pela culatra”, diz ele. O professor pondera que a medida pode atingir não apenas políticos, mas também figuras ligadas ao mercado financeiro que mantêm interações com o PCC e o CV.

“Pode-se cogitar que a iniciativa vá alvejar pessoas ligadas à política, além de políticos profissionais, que mantenham interações com o PCC e o CV. Isso já tem vindo à tona nos últimos tempos. Já se sabe de algumas relações envolvendo a turma da Faria Lima, os investidores e os bancos com o crime organizado. Quem propôs essa medida pode estar jogando contra si.”

Segundo Lopes, esses setores, que em sua maioria apoiam a pré-candidatura de Flávio, possuem grande influência econômica e política. “Se forem atingidas podem se voltar contra ele, porque são pessoas com muito dinheiro e influência para mexer nas alavancas do sistema político brasileiro”, avalia.

O professor fundamenta sua análise em investigações da Receita Federal, da Polícia Federal e do Ministério Público. Essas instituições deflagraram, no ano passado, operação contra um esquema que usava fundos de investimentos e empresas da Faria Lima para lavar e ocultar recursos do PCC no tráfico de drogas e no setor de combustíveis, com movimentação estimada em pelo menos R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.

Lopes observa que sanções financeiras contra o Brasil ou brasileiros poderiam se assemelhar à Lei Magnitsky, aplicada no ano passado contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. No entanto, ele acredita que o impacto deve ser limitado. “Os bancos brasileiros foram pressionados a quebrar negócios com ele, mas resistiram, porque foram instruídos pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central para fazer isso. O Brasil já está vacinado contra esse tipo de pressão. Não vejo o sistema bancário sucumbindo e fazendo o jogo da diplomacia estadunidense, até pelas garantias que o governo brasileiro tem dado”, diz.

O professor lembra ainda que a relação entre Brasília e Washington está mais estável no momento atual. “Neste momento, a relação é bastante civilizada, e o nível de tensão, bastante controlado. Não vejo possibilidade de uma disrupção”, opina.

Para ilustrar o argumento, Lopes compara o caso brasileiro com o do México, onde os cartéis foram classificados como organizações terroristas logo no início do segundo mandato de Trump, no ano passado. “Se no México o impacto foi modesto, no Brasil tende a ser menor ainda”, diz. Ele explica que a dependência comercial do México em relação aos Estados Unidos é muito maior, enquanto no Brasil o principal parceiro é a China. “Os Estados Unidos são importantíssimos para o Brasil, sim, mas não são nem sequer nosso maior parceiro comercial. A China faz mais do que o dobro de comércio com o Brasil do que os Estados Unidos”, conclui.

Com informações da BBC Brasil.

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