Política - -
Willer Tomaz ampliava patrimônio em ilhas enquanto Flávio Bolsonaro defendia PEC das Praias
Termômetro da Política
Compartilhe:

Na Ilha do José André, inserida na Área de Proteção Ambiental (APA) de Tamoios, o advogado Willer Tomaz planejava erguer um resort de luxo com piscinas, beach club, spa, restaurante, área para eventos, hangar e heliponto, conforme revelado pelo RJ2. Para ampliar a área construída, ele protocolou pedido junto ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) do Rio de Janeiro em 20 de março de 2026 — exatamente no dia em que o então governador Cláudio Castro editou decreto que revogava planos de manejo de áreas de proteção ambiental. O ato foi depois derrubado pelo desembargador Ricardo Couto, que assumiu o governo estadual, e o empreendimento não avançou. Castro declarou que não discutiu previamente o conteúdo da medida com Tomaz nem recebeu pedido para editá-la; segundo o ex-governador, o decreto tinha caráter geral e técnico. Tomaz informou ao RJ2 que não comentaria o caso.

Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro mantinham conta conjunta no Santander
Além de uma conta conjunta no Santander, Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro tinham negócios em comum (Foto: Reprodução/X)

O mesmo advogado, investigado no Supremo Tribunal Federal junto com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) por suspeitas de lavagem de dinheiro, detém outras cinco casas em ilhas de Angra dos Reis, na Costa Verde fluminense, além da propriedade que gerou disputa com o jogador Richarlison. Com exceção de uma, as aquisições ocorreram entre 2021 e 2022 — período em que Flávio apresentou ao Senado projeto de lei para estimular empreendimentos na região, com autorização para municipalizar unidades de conservação federais e estaduais. O objetivo da proposta é flexibilizar as regras para a exploração econômica da área. No mesmo intervalo, Flávio atuou como relator da PEC das Praias no Senado, cujo texto permite a privatização das ilhas marítimas do país, hoje pertencentes à União. Ambos os projetos seguem em tramitação. Em 2024, a Secretaria de Patrimônio da União (SPU) se manifestou contra a PEC por favorecer a grilagem.

Favorite o Termômetro da Política no Google e acompanhe as notícias mais importantes para o seu dia

Levantamento nos sistemas da SPU e em registros de cartório lista as casas de empresas ligadas a Tomaz: na Ilha Comprida, terreno de 175,2 mil m² adquirido pela WT Administração de Imóveis e Bens em setembro de 2021 (valor patrimonial de R$ 5,7 milhões); outro de 32,8 mil m², mesma empresa e mês (R$ 2,1 milhões); terceiro de 181,8 mil m², também em setembro de 2021 (R$ 6 milhões); e um de 2,1 mil m², comprado em julho de 2022 pela WT (R$ 2,9 milhões — o imóvel disputado com Richarlison). Na Ilha do José André, terreno de 57,3 mil m² adquirido em 2008 pela Friponor Brasil Turismo, Empreendimentos e Participações (R$ 23,7 milhões). Tomaz ainda detém cotas de uma sexta casa na Ilha do Jorge, registrada em nome da Real Estate Duo 4, do grupo Prime You. A Prime You administra bens de luxo compartilhados por milionários, como aviões, barcos e mansões. O banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, foi sócio da empresa de setembro de 2021 a setembro de 2025 e utilizava casa próxima na mesma ilha, segundo o UOL. Ao portal, Tomaz afirmou que adquiriu participação de 25% na casa da Prime You em 2022 e que nunca teve “qualquer relação pessoal, comercial ou societária” com Vorcaro.

Leia também
Petrobras faz nova descoberta de petróleo na Foz do Amazonas e registra recorde de produção no 3º trimestre

Tomaz e Flávio confirmam que são amigos, mas negam ter negócios juntos. Questionado sobre eventuais projetos comerciais nas ilhas e sobre sua relação com as propostas legislativas de Flávio, o advogado não se manifestou; o senador não foi localizado. Tomaz mudou-se para os Estados Unidos em agosto deste ano, após operação da Polícia Federal. Flávio seguiu para a Flórida dois dias depois de ser derrotado no segundo turno por Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A disputa que expôs os investimentos envolveu Richarlison de Andrade, atacante do Tottenham e ex-jogador da Seleção Brasileira. Em vídeos publicados em 17 e 21 de outubro, com milhões de visualizações no período eleitoral, o jogador acusou Flávio de envolvimento na briga pelo imóvel de luxo na Ilha Comprida — que possui cachoeira desaguando no mar. No debate da Globo, Lula questionou o então candidato, que respondeu que a Justiça já havia decidido a favor de Tomaz. Na véspera do segundo turno, o petista afirmou que brigaria para devolver a Richarlison o direito de ocupação. O atacante declarou ocupar a casa desde 2020 e ter investido R$ 10 milhões por meio da empresa Sport 70, da qual é sócio. Segundo ele, Flávio visitou a ilha, demonstrou interesse e, após a recusa de venda, se aliou a Tomaz para obter os direitos.

A reportagem examinou os processos da SPU. A Sport 70 pediu regularização em 20 de setembro de 2021, sem andamento. Do lado de Tomaz, o processo começou em 5 de maio de 2022, quando a M Locadora de Veículos — empresa de terceiros — solicitou regularização de ocupação que remontava à década de 1980; a tramitação foi célere e favorável. Em 11 de julho de 2022, a mesma empresa pediu Certidão de Autorização para Transferência (CAT) às 11h33; o documento foi emitido pela SPU às 13h13 do mesmo dia. Em seguida, o imóvel passou à WT Administração de Imóveis e Bens. Servidor ouvido pela reportagem apontou a celeridade em um caso e a ausência de análise em outro como o ponto mais controverso no âmbito administrativo; em 2022, a SPU estava subordinada ao governo de Jair Bolsonaro. Dias antes do segundo turno, os deputados Rogério Correia (PT-MG) e Pedro Uczai (PT-SC) pediram ao STF que investigasse o caso da ilha no mesmo inquérito que já apura as relações entre Flávio e Tomaz; o relator é Alexandre de Moraes. Sobre a disputa, Tomaz sustenta que o jogador “pagou a posseiros” quando comprou a casa, “e não à proprietária de direito”. Ele apresenta escritura registrada, certidão da SPU e decisões favoráveis na Justiça, inclusive no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Pela Constituição Federal, as ilhas são bens da União. Empresas e indivíduos podem ocupá-las mediante processos de aforamento ou ocupação junto à SPU, que pode rever essas ocupações. Os planos de valorização da Costa Verde remontam ao governo de Jair Bolsonaro. Em maio de 2019, o então presidente declarou querer transformar Angra em “uma nova Cancún”: “O nosso estado merece ter uma Cancún. E nós poderemos tê-la. E estamos trabalhando para a região de Angra. Depende de um decreto presidencial. Porque a Estação Ecológica de Tamoios está demais. Não preserva absolutamente nada e faz de uma área rica, que pode trazer bilhões de reais, por ano, em turismo, parada por falta de uma visão mais objetiva, mais progressista nessa questão”.

Em 13 de outubro de 2021, Flávio apresentou o Projeto de Lei Complementar nº 157/2021 para criar Região Administrativa Integrada de Desenvolvimento Sustentável (Rides) com Angra dos Reis, Mangaratiba e Paraty, visando estimular turismo, economia e preservação ambiental, além de autorizar a municipalização de unidades de conservação. Em 28 de setembro daquele ano, Tomaz já havia adquirido três casas na Ilha Comprida. Na justificativa, Flávio escreveu: “Esse cenário paradisíaco não deixa nada a desejar em relação aos destinos turísticos similares mais procurados do mundo, como por exemplo Tailândia, Filipinas, Cancun, Grécia, Jamaica, Bahamas, Fiji ou República Dominicana”. Afirmou ainda que as prefeituras “aguardam com grande expectativa” a aprovação. O texto está na Comissão de Meio Ambiente do Senado desde abril de 2025. A PEC das Praias, apresentada na Câmara em 2011 e aprovada no plenário em fevereiro de 2022, aguarda análise na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.

Com informações do portal g1.

Compartilhe: