
Tramita na Câmara dos Deputados um projeto de lei que propõe equiparar misoginia ao crime de racismo. A legislação brasileira atualmente enquadra essa prática de ódio às mulheres como injúria, que tem pena prevista no Código Penal de dois meses a um ano de prisão. É pouco. O avanço social com a aprovação do projeto amplia a punição para dois a cinco anos de prisão, além de multa, e endurece a tipificação dos casos, pois torna o crime inafiançável e imprescritível. Aprovado por unanimidade no Senado, hoje o projeto (PL 896/2023) está parado na Câmara desde o dia 8 de abril, aguardando ação do presidente Hugo Motta. Já houve requerimento de inclusão da matéria na Ordem do Dia, mas o paraibano ignora.
E por que abrir a coluna de Esportes falando sobre política? Porque dependemos desses avanços sociais na luta por ambientes menos hostis para atletas. Na quarta-feira (20), durante a partida entre Ferroviária e São Paulo pelo Campeonato Brasileiro Sub-20 de futebol feminino, a árbitra precisou acionar o protocolo antirracismo da CBF para apurar uma denúncia de misoginia em campo. O maqueiro do time mandante havia xingado a zagueira Sarah Aysha, do Tricolor, de “biscate”.
“A gente está aqui para aprender, todo dia aqui treinando, o ano inteiro longe da família, para chegar um cara daquele e me chamar de biscate fora de campo. É inadmissível”, desabafou a atleta.
Entre notas de repúdio e pressão por punições, a Ferroviária demitiu o maqueiro e se comprometeu a investir mais em recursos humanos para evitar novos episódios do tipo.
A cena do desabafo de Sarah é impactante. Uma atleta jovem, que acabou de sair da adolescência, tendo que enfrentar tamanha violência. Ela chora. Há relatos de companheiras de time contando que ela teria passado mal e vomitado após o episódio. Ninguém merece passar por esse tipo de situação no ambiente de trabalho.
Endurecer a legislação não garante que a misoginia vai acabar no futebol. Prova maior é o racismo, que tem leis duras, consolidadas, e mesmo assim vez por outra vemos os casos acontecendo em campo. Leis rígidas, no entanto, servem para coibir os agressores. Mesmo que fora de campo as agressões continuem, o ambiente de trabalho durante a partida fica um pouco mais preservado.
No caso de Sarah, ao mesmo tempo em que a atleta recebeu diversas manifestações de solidariedade por meio das redes sociais digitais logo após a partida, também houve uma infinidade de comentários depreciativos, como se o futebol precisasse ser assim e, por isso, o esporte não fosse adequado para mulheres. Pouparei os leitores deste nobre espaço de reproduzir o que li de pior, mas garanto que é mais misoginia, em tom não menos criminoso do que aquele proferido pelo infame maqueiro da Ferroviária.
Não podemos naturalizar xingamentos e atitudes criminosas como se fizessem parte do esporte. O esporte deve ser o contrário disso. Quando nos deparamos com episódios tão lamentáveis, bate a sensação de que avançamos pouco ou quase nada, mas acredito no modelo de avanço helicoidal, no qual apesar dos aparentes retrocessos, a sociedade demonstra seguir em frente. Que toda misoginia seja enfrentada, rechaçada e devidamente punida, para que nenhuma atleta no Brasil precise mais passar pelo que Sarah passou.
Texto publicado originalmente na edição de 21.05.2026 do jornal A União.