Jornalista, fotógrafo e consultor. Mestre em Computação, Comunicação e Artes pela UFPB. Escreve desde poemas a ensaios sobre política. É editor no Termômetro da Política e autor do livro infantil "O burrinho e a troca dos brinquedos". Twitter: @gesteira.
Jornalista, fotógrafo e consultor. Mestre em Computação, Comunicação e Artes pela UFPB. Escreve desde poemas a ensaios sobre política. É editor no Termômetro da Política e autor do livro infantil "O burrinho e a troca dos brinquedos". Twitter: @gesteira.
Pressão
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Técnico Roger Machado, do São Paulo
Técnico Roger Machado, do São Paulo (Foto: Divulgação/SPFC)

Neymar não aguenta mais a pressão para conseguir alcançar o patamar aceitável de seu futebol e convencer o técnico Carlo Ancelotti a lhe dar uma vaga na Copa do Mundo deste ano. O auge de volta é impossível, e o mínimo necessário ainda está distante. Diante da dificuldade, ele desabafou por meio das redes sociais que “não tem ser humano que aguente”. 

Outro que vem sofrendo pressão é o técnico do São Paulo, Roger Machado. Empurrado goela abaixo pela diretoria, que trocou o argentino Hernán Crespo com o time na liderança do Brasileirão sem motivo algum, Roger ‘sofre’ para conduzir seu trabalho. Na última partida, contra o Juventude pela Copa do Brasil, na terça-feira (21), saiu de campo vaiado e xingado, mesmo tendo vencido por 1 a 0. 

No caso de Neymar, após anos passando a mão na cabeça do jogador, hoje parece que a imprensa esportiva faz críticas mais contundentes sobre sua atuação. Com Roger, por outro lado, parece haver um desencontro entre os números apresentados até aqui, a digna manifestação dos torcedores, pois é para eles que o espetáculo existe, e o que diz a mídia especializada, como se a pressão sobre Roger fosse desmedida.

Hoje, excepcionalmente, não quero me aprofundar sobre futebol, mas tratar apenas do tema pressão. Este, sim, vem sendo banalizado. 

Quem acertou em cheio e por isso viralizou nas redes digitais com seu comentário foi o narrador Galvão Bueno ao comentar o ‘desabafo’ de Neymar. “Neymar, me perdoe. Não tem ser humano que aguente não ter emprego. Não tem ser humano que aguente não ter dinheiro pra botar comida na mesa pros filhos. Não tem ser humano que aguente não conseguir botar os filhos na escola”, rebateu Galvão. Está mais do que correto. Ultimamente, diante de tanta desigualdade social que sempre existiu no Brasil, pessoas ricas passaram a achar de bom tom falar sobre pressão quando esta simplesmente não existe, ou está precificada no serviço. 

Dia desses vi também pela internet o ‘desabafo’ de uma desembargadora a reclamar de seu salário pelo fim dos penduricalhos no serviço público. É verdade que magistrados enfrentam pressões na profissão, pelas decisões que precisam tomar e pelo público afetado. Mas considerando que o teto do funcionalismo no Brasil gira em torno de R$ 46 mil, o salário médio do trabalhador brasileiro é R$ 3.652 mensais e esta mesma desembargadora havia recebido mais de R$ 90 mil em vencimentos somente no mês de março, a reclamação soa como um escárnio. 

O mesmo vale para Neymar, muito bem enquadrado por Galvão Bueno, e Roger Machado. Qual é a pressão sofrida pelo técnico do São Paulo? A indisposição da torcida? Será que ele não imaginava que o clima hostil estaria incluso no pacote do trabalho quando aceitou a empreitada? Como disse, está precificado. Roger Machado não figura entre os treinadores mais caros do país, ganha menos que seu antecessor no São Paulo, e ainda assim não é pouco: recebe R$ 700 mil mensais. É dinheiro suficiente para ser vaiado sem achar ruim. E se for demitido, a multa rescisória é de R$ 2 milhões. No país do rentismo, somente com o dinheiro da multa do São Paulo e sem fazer mais nada pelo resto da vida, Roger teria o equivalente a mais de cinco vezes o salário médio do trabalhador brasileiro somente com rendimentos. Não, não tem pressão.

Texto publicado originalmente na edição de 24.04.2026 do jornal A União.

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