Jornalista, fotógrafo e consultor. Mestre em Computação, Comunicação e Artes pela UFPB. Escreve desde poemas a ensaios sobre política. É editor no Termômetro da Política e autor do livro infantil "O burrinho e a troca dos brinquedos". Twitter: @gesteira.
Jornalista, fotógrafo e consultor. Mestre em Computação, Comunicação e Artes pela UFPB. Escreve desde poemas a ensaios sobre política. É editor no Termômetro da Política e autor do livro infantil "O burrinho e a troca dos brinquedos". Twitter: @gesteira.
Abdução
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(Imagem: Grok)

Todo mundo riu quando se espalhou pela cidade a previsão feita por uma famosa vidente para a partida entre Escócia e Brasil, pela última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026. Na verdade, quase todo mundo. Adalberto ouvia com atenção. No dia em que vazou a notícia ele quase não consegue voltar para casa de tanto parar, em cada esquina, na padaria, na banca do bicho, apurando todos os detalhes sobre o que dizia a visão daquela mulher sobre o futuro iminente: uma invasão alienígena aconteceria e jogadores da Seleção Brasileira seriam abduzidos por extraterrestres.

Não que Adalberto acreditasse em videntes, mas ele dizia se comunicar com alienígenas. Mantinha em sua casa um vasto aparato de comunicação funcionando a partir de ondas de rádio por meio das quais, diariamente, dizia receber mensagens de fora do planeta. O que havia começado como um passatempo tornou-se obsessão ao longo de 30 anos. Ele era visto no bairro como maluco, mas respondia aos olhares com um sorriso de canto de boca, certo de que algumas verdades contidas ‘lá fora’ só estavam ao alcance daqueles que acreditavam na existência de vida fora da Terra. Foi assim na semana anterior, quando o sistema de alertas da Defesa Civil supostamente teria sido hackeado para mandar um aviso sobre invasão alienígena. Ele sabia exatamente do que se tratava e o episódio coincidia com a predição da vidente. 

A verdade é que por 30 anos Adalberto recebia mensagens truncadas, mas em nenhuma houve qualquer prova de alguém tentando se comunicar com ele. Até o dia do jogo. Desde o anúncio da vidente, ele não saiu mais do quarto, esperando uma mensagem clara. Horas antes da partida, enfim, chegava algo de concreto. Um ser denominado Gnlkhrtcx, que dizia ser funcionário público do governo de um sistema solar longínquo, avisava sobre sua missão de capturar ao menos um ídolo da Seleção Brasileira. Adalberto era fissurado na vida em galáxias distantes, mas uma coisa a cada quatro anos desviava sua atenção. Ele também era fã de Copa do Mundo, e assim como o resto do país, vibrava pelo hexa do Brasil. Na angústia sobre uma abdução real, temia que os aliens levassem uma peça que fizesse falta ao Brasil. Imagina se, além das perdas por lesão, a Seleção perdesse também Vini Jr? Seria o fim do sonho. Ele pediu que Gnlkhrtcx esperasse ao menos o jogo acabar, e assim ficou acordado.

Encarregado pela indicação, Adalberto vivia um dilema. Quem seria a menor perda? Vini Jr. jamais! Também não podia ser Matheus Cunha, que vinha fazendo gols, tampouco Rayan, que entrara tão bem. Bruno Guimarães não, acertava passes precisos, enquanto Casemiro e Paquetá, mesmo apagados, poderiam mostrar força adiante. Os quatro da defesa estavam todos impecáveis: Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos, nenhum deles era negociável. E Alisson, que antes fora tão criticado, também fechava o gol. Adalberto olhou para o banco e teve uma ideia. Dali, pensou, o único que não faria falta e ainda encerraria a polêmica na Seleção seria Neymar. Se ele sobe para o céu, abduzido ou arrebatado, como queiram chamar, terminaria a Copa como mártir. Estava decidido, informaria Gnlkhrtcx assim que o jogo acabasse para que ele levasse nosso maior nome. Eis que Ancelotti coloca Neymar em campo, a torcida vibra e, mesmo fora de forma, o camisa dez brasileiro dá passes, cria chances de gol e ainda acerta um chute na direção do goleiro adversário. 

Acaba o jogo, 3 a 0 para o Brasil numa grande exibição. Gnlkhrtcx pressiona, deixando Adalberto encurralado. Não tinha o que fazer. E caso se negasse a indicar, a abdução seria aleatória. Ou seja, poderia ser pior. Olhando para a beira do gramado, nosso interlocutor interplanetário teve uma ideia brilhante. “É ídolo da Seleção que vocês querem, pois aquele diz ser o maior de todos, podem levar. Verdade, ele está sem uniforme, mas é sim da Seleção. Sim, ele mesmo, aquele com microfone na mão. E veja, assim como você, também é funcionário público, com a diferença que falta muito ao trabalho”. 

Negócio fechado. Os ETs deixaram o caminho livre para o hexa e só levaram o Romário.

Texto publicado originalmente na edição de 26.06.2026 do jornal A União.

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