Jornalista, fotógrafo e consultor. Mestre em Computação, Comunicação e Artes pela UFPB. Escreve desde poemas a ensaios sobre política. É editor no Termômetro da Política e autor do livro infantil "O burrinho e a troca dos brinquedos". Twitter: @gesteira.
Jornalista, fotógrafo e consultor. Mestre em Computação, Comunicação e Artes pela UFPB. Escreve desde poemas a ensaios sobre política. É editor no Termômetro da Política e autor do livro infantil "O burrinho e a troca dos brinquedos". Twitter: @gesteira.
Novo futebol
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(Foto: Divulgação/Fifa)

“Pelé não jogaria o tanto que jogou se fosse atleta no futebol atual”. Essa talvez seja uma das maiores balelas ditas atualmente por quem utiliza espaços de mídia para comentar sobre futebol. Sou defensor ferrenho da democratização da informação, mas é preciso estar atento diante de tanta coisa absurda que se ouve e que se lê. Ainda sobre Pelé, li que acumulou feitos porque os defensores dos times adversários eram “amadores”. Vejam como é grave esse tipo de insinuação, pois Pelé enfrentou Franz Beckenbauer como zagueiro e Lev Yashin como goleiro. 

É verdade que o futebol mudou. Hoje o jogo é mais físico, os atletas investem mais na parte física, mas se observar bem, não foi só o futebol que evoluiu fisicamente. A evolução física acontece em todos os esportes. Basta olhar o atletismo, como exemplo, mas posso citar muitos outros: natação, vôlei, basquete. Em todos há um maior cuidado com a parte física e o rendimento dos atletas. A análise superficial sobre ‘mudança’ no futebol esquece de dizer que todo desenvolvimento, e aí não somente no futebol, vem acompanhado também da evolução da ciência. Lionel Messi nem teria sido jogador profissional de futebol no tempo de Pelé, pois não conseguiria os tratamentos hormonais que precisou ter acesso quando era criança.

Com mais ciência e mais recursos, a vida dos atletas hoje é muito mais fácil. No tempo de Pelé os gramados não tinham sistema de drenagem, quando chovia, o jogo seguia no lamaçal. As roupas dos jogadores eram pesadas, encharcavam de suor, diferentemente dos tecidos tecnológicos de hoje, muito leves e sempre secos. A alimentação também era diferente, mais natural. Hoje há suplementos disponíveis para potencializar a recuperação dos atletas no pós-jogo. 

No tempo de Pelé também não existia VAR. Na verdade, mal havia câmeras de vídeo nos estádios. Do muito que Pelé apanhava em campo, pouco era visto e quase tudo passava batido pela arbitragem.

A grande verdade é que com medicina esportiva, tecnologia, acompanhamento profissional de alto nível e mídia em cima dele, se Pelé fosse jogador nos tempos de hoje, seria até maior do que foi. 

Me vejo um pouco ranzinza quando puxo esse discurso geracional, mas a geração que cresceu jogando futebol no Playstation e começou há pouco tempo a acompanhar e comentar sobre o esporte superestima os atletas atuais, em virtude da mídia gerada pelas cartinhas dos jogos de videogame, ao passo que subestima gigantes do passado. Por mais que Luka Modrić tenha jogado tanto a ponto de vencer uma Bola de Ouro, não foi maior do que Zico.

O que me preocupa mesmo nessa discussão sobre ‘novo futebol’ é como o esporte pode ser alterado e novas regras empurradas goela abaixo. O maior exemplo disso acontece com a pausa para hidratação, inserida oficialmente nesta Copa do Mundo. Até alguns jogadores já criticaram a parada, pois serve como pausa publicitária para tornar o esporte mais lucrativo a quem negocia esses espaços, e isso é óbvio, mas também impõe uma quebra de ritmo, servindo como parada técnica. Antes,os jogadores se hidratavam à beira do gramado, durante o jogo mesmo, e em caso de calor extremo, para preservar a integridade dos atletas, o árbitro poderia fazer uma pausa. Só que essa pausa eventual não poderia ser comercializada, por isso a imposição de uma parada obrigatória e com hora marcada. 

A Fifa já vinha demonstrando intenção de mudar o esporte para quatro quartos, como é o basquete americano. Esse novo futebol, com paradas e reajustes táticos, muda completamente o esporte, e isso sim é preocupante.

Texto publicado originalmente na edição de 3.7.2026 do jornal A União.

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