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Redução da Selic a 7,5%: André Lara Resende abraça bandeira da campanha de Lula
Termômetro da Política
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O economista André Lara Resende, um dos formuladores dos planos Cruzado e Real, apresentou uma proposta para reestruturar a condução da política econômica brasileira e promover uma queda expressiva da taxa básica de juros (Selic). A tese, que ganhou relevância após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2026, prevê a redução gradual da Selic para aproximadamente 7,5% ao ano em 12 meses e, posteriormente, o estabelecimento de um intervalo permanente entre 3% e 5,5%. Um encontro entre Lara Resende e Lula está previsto para esta semana em Brasília.

Proposta prevê a redução gradual da Selic para aproximadamente 7,5% ao ano em 12 meses (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

A tese central de Lara Resende inverte a explicação predominante sobre o desequilíbrio das contas públicas. Em vez de atribuir a necessidade de juros elevados ao excesso de gastos primários, ele argumenta que a própria taxa de juros é o principal vetor do crescimento da dívida e do desequilíbrio fiscal. A proposta de derrubar a Selic vem sendo defendida pelo presidente Lula e foi uma de suas bandeiras durante a campanha. “Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater”, escreveu o economista. Segundo seus cálculos, em junho de 2026 o custo médio da dívida pública havia alcançado 12,68% ao ano. Aplicado a uma dívida bruta da ordem de R$ 10,9 trilhões (cerca de 82,5% do PIB), esse patamar representaria um custo anualizado próximo de R$ 1,4 trilhão, ou 10,5% do PIB. Dados do Banco Central de setembro de 2026 confirmam a dívida bruta do governo geral em 82,9% do PIB (R$ 11,1 trilhões), o maior nível desde 2021, com despesas de juros nominais acumuladas em 12 meses de cerca de R$ 1,2 trilhão (8,99% do PIB). A Selic está atualmente em 13,75% ao ano.

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Para reverter esse quadro, a proposta prevê a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), responsável por definir metas integradas de política fiscal e monetária em horizontes de quatro a cinco anos. O Banco Central manteria a gestão operacional, mas atuaria dentro de diretrizes conjuntas para juros, meta de inflação e sustentabilidade das contas públicas. O piso da taxa ficaria atrelado à meta de inflação (atualmente 3% ao ano) e o teto ao crescimento nominal potencial da economia (meta de inflação somada ao crescimento real potencial, estimado por ele em cerca de 2,5% ao ano, o que resultaria em 5,5%). Em condições normais, a Selic permaneceria nessa faixa. Uma margem temporária de segurança de dois pontos percentuais elevaria o patamar inicial a cerca de 7,5%, a ser eliminada gradualmente. O Banco Central anunciaria com antecedência a trajetória de redução. “Só em casos excepcionais, autorizados pelo CFMN, a taxa básica poderia ser inferior ao piso — a meta de inflação — ou superior ao teto — o crescimento nominal do PIB potencial — do intervalo”, propõe Lara Resende. A redução do custo médio da dívida de cerca de 13% para 7,5% poderia gerar, após incorporação à estrutura do endividamento, uma economia próxima a quatro pontos percentuais do PIB anualmente. O economista chama o arranjo de “novo regime fiscal e monetário” e admite que uma queda mais abrupta poderia gerar pressão cambial inicial, sugerindo o uso das reservas internacionais (estimadas em cerca de US$ 350 bilhões) para mitigar o impacto.

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A possibilidade de discussão da proposta com o governo gerou apreensão no mercado financeiro, que interpreta o movimento como risco de interferência na autonomia do Banco Central e possível desancoragem de expectativas. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que haja discussão formal sobre “tabelar” a Selic. Por outro lado, a ex-ministra e ex-presidente do PT Gleisi Hoffmann elogiou o artigo de Lara Resende, destacando a crítica à política de juros vigente. O economista reconheceu em texto anterior que o país gasta mal — citando emendas parlamentares, privilégios do Judiciário, isenções e subsídios —, mas sustentou que, excluído o serviço da dívida, as contas primárias estariam praticamente equilibradas e o déficit primário seria pequeno em comparação internacional.

André Lara Resende tem trajetória central na história econômica recente do Brasil. Formado pela PUC-Rio e com doutorado pelo MIT, foi professor na PUC e, nos anos 1980, elaborou com Pérsio Arida a proposta Larida de moeda indexada para quebrar a inflação inercial — ideia que fundamentou tanto o Plano Cruzado (1986) quanto, de forma mais bem-sucedida, o Plano Real (1994), por meio da Unidade Real de Valor (URV). Atuou no Banco Central, foi negociador-chefe da dívida externa no governo Itamar Franco, assessor especial da Presidência e presidente do BNDES no governo Fernando Henrique Cardoso. Em 2022, integrou o grupo de economia da equipe de transição do terceiro mandato de Lula. Sua crítica atual à ortodoxia monetária e fiscal retoma debates sobre os limites do modelo que ajudou a consolidar nos anos 1990.

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