Anderson Pires é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB, publicitário e cozinheiro.
Anderson Pires é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB, publicitário e cozinheiro.
Carta aos ateus
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Imagem em estilo xilogravura gerada por IA

O Brasil é um país de crentes. Na verdade, majoritariamente cristãos. Somados, católicos e evangélicos representam quase 85% dos brasileiros e brasileiras. Todas as demais crenças e os sem religião, como eu, estão espremidos e esquecidos nos 15% restantes. Mas o que importa essa constatação?

Parece algo irrelevante — e deveria ser. No mundo que nós, ateus, defendemos, as crenças não devem ser condutoras da vida em sociedade. Acreditamos que as pautas e necessidades objetivas devem ser prioridade nos debates que impactam a vida das pessoas. Pouco importam os destinos que as pessoas terão após a morte. Muito menos se, durante a vida, terão a aprovação divina, principalmente se isso for feito por meio de atravessadores que comercializam esse serviço.

Mas essa perspectiva de que mais valem a realidade e a busca por soluções efetivas para as demandas sociais não é compartilhada por uma parcela gigantesca da população brasileira. Por mais absurdo que seja, a cada nova eleição, escolhas que deveriam ser tratadas no âmbito terreno são levadas para o campo da moral cristã. Trazem para a política a ignorância que deveria ter sido deixada na Idade das Trevas, período de declínio cultural, econômico e intelectual na Europa.

O Brasil virou um terreno fértil para o obscurantismo religioso. As insatisfações dos segmentos mais conservadores deixaram de ser explicitadas como pleitos e passaram a ser tratadas como mandamentos religiosos. Nesse sentido, encontram explicações para defender a desumanização do Estado brasileiro com base em pressupostos bíblicos que caminham sempre no sentido de oprimir os mais vulneráveis, garantir a segregação que amplia a desigualdade e resguardar os privilegiados, como se estes fossem os escolhidos por Deus.

Porém, esse embate não é simbólico. O pedágio religioso tornou-se obrigatório para estabelecer quem irá governar o país. Nessa lógica, questões ligadas à saúde, à educação, à segurança e a outras áreas sociais passam a ter suas discussões contaminadas pela condução que os políticos acreditam ser mais aceita pelos seguidores de determinada religião. A construção social fica submetida às vontades de líderes religiosos e à orientação que imaginarem ser mais eficiente para atrair fiéis e rentabilizar a fé.

Não estamos falando de temas secundários. As crenças propagadas agem diretamente sobre os direitos humanos e sobre questões de saúde pública, como o aborto, as vacinas e as políticas contraceptivas, além da educação em todos os níveis. Na segurança pública, interpretações religiosas servem como álibi para o armamentismo e a prática do justiceirismo. No campo econômico, interferem até nas políticas de distribuição de renda, quando defendem que tudo é oriundo do mérito e da prosperidade: nada de dar o peixe, apenas ensinar a pescar — ou pegar o peixe na tapa.

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O Brasil carrega em sua história uma relação de simbiose entre Igreja e Estado. Se antes isso era quase uma exclusividade da Igreja Católica, hoje proliferam incontáveis franquias religiosas, com abordagens mercadológicas explícitas para cooptar mais clientes e ampliar suas zonas de influência. Nos moldes de qualquer atividade capitalista, o tamanho do mercado que atendem estabelece o grau de influência, os privilégios e o nível de proteção que terão do Estado.

Dessa forma, não cabe relativizar. Essa questão vale para todas as igrejas. Engana-se quem achou, um dia, que a Igreja Católica tinha seu ápice de influência nos feriados religiosos, nos santos e na padroeira. Esses símbolos refletem o momento de ascensão e glória que teve no passado. Hoje, esse espaço é dividido e, politicamente, obriga a Igreja a se posicionar. Faz um bom tempo que a Igreja militante está em declínio. Um movimento que já foi muito forte e representativo na América Latina, com expoentes da Teologia da Libertação, propagando a defesa dos direitos humanos e o restabelecimento da democracia.

Houve um processo de ausência e acomodação, como se o fim dos regimes ditatoriais e alguns pequenos avanços sociais permitissem abandonar as lutas e se omitir em relação a muitos temas de cunho político-social. Não é saudosismo. Seria extremamente atual ressuscitar obras como Jesus Cristo Libertador, de Leonardo Boff, ou Teología de la Liberación: Perspectivas, escrita pelo peruano Gustavo Gutiérrez, assim como recuperar a contribuição de evangélicos, a exemplo do teólogo presbiteriano Rubem Alves e de suas obras. E digo isso como ateu que sou, ciente da minha incapacidade de trazer pessoas para a mesma fileira, mas também de que a ausência de criticidade na Igreja empurrou o serviço da fé para esse lamaçal que testemunhamos.

Imaginemos que, no passado, padres e pastores foram acusados de ser comunistas por defenderem o direito à liberdade de expressão e por se posicionarem contra o autoritarismo e a tortura como prática do Estado. Em plena democracia, Dom Helder Câmara seguia defendendo a necessidade de existir uma Igreja dos pobres, com o papel de iluminar e propagar ideias que se contrapusessem à exploração e à ampliação da desigualdade. A lógica hoje é inversa: a prosperidade passou a ser a meta divina, em um mercado no qual bilhões circulam em meio a muito luxo e ostentação. Logo, qualquer movimento que conteste isso deve ser exterminado, porque representa um perigo ao negócio.

Pois é, chegamos a mais uma eleição presidencial com forte influência religiosa. Não temos o que se possa chamar de guerra santa entre grupos religiosos, mas seguimos convivendo com absurdos que vão da imposição de uma moral cristã conservadora, que oprime mulheres, negros, homossexuais e pobres, até a discussão sobre a manutenção de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. Talvez alguns não percebam o perigo desse tipo de debate desqualificado. Contraditoriamente, mesmo nós, ateus, estamos submetidos a isso, pois os espaços para o debate sobre ideologias e demandas objetivas foram suplantados pelas divindades e por suas corrupções terrenas.

Nessa luta, não nos caberá apenas empunhar a bandeira do Estado laico, muito menos simplesmente questionar as religiões como instrumentos de dominação e de manutenção do regime capitalista. Como isentos que somos das influências divinas, caberá a nós detectar quais são os pontos extremos e inaceitáveis. Entre os defensores da santa negra e os influenciadores defensores das bets, existe uma diferenciação a ser feita. Entre os patrocinadores e integrantes da luxuosa Igreja Batista da Lagoinha e aqueles que se perfilam ao lado do padre Júlio Lancellotti, também cabe uma diferenciação baseada na objetividade — e ela não está na Bíblia nem em qualquer discurso cristão.

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